quinta-feira, 26 de julho de 2012

Casa



Aquilo a que deliciosamente chamamos casa é um espaço que é nosso. Nele deveremos conseguir  morrer no constructo e nascer na essência, sendo exactamente por isso que lá permanecemos tão sossegados. Julgo que haverá gente com dificuldades em cessar de vez a ideia do que se quer ser perante a ideia do que se é. Não me parece nada prudente, não permite descanso, pureza, não nos deixa emergir de nós mesmos, o que deverá constituir com o tempo um desgaste sem fim. Em casa devemos poder andar desarrumados. Despenteados, sujos, indecentes ou até mal dispostos. Deveremos também e se for caso disso, pincelar as imperfeições de cores, muito embora a casa saiba que ali, naquele exacto local, existe uma deformidade camuflada que se esconde apenas porque nos apetece, mas que ainda assim nos pertence, é parte integrante e constituinte do nosso ser. Deveremos poder cair sem querermos levantar, sorrir até ao infinito sem motivo algum, fazer greve de fome ou comer muito além de nos sentirmos saciados, porque sim. Os olhos da casa nunca são críticos ao ponto de nos anuviar as vontades. São cúmplices, pertencem-nos exactamente como nós lhe pertencemos a eles. As casas também têm cinco sentidos. Não nos olham apenas. Sentem-nos no paladar, no toque, no cheiro, e ouvem-nos como mais ninguém nos consegue ouvir, ainda que por vezes nada digamos da boca para fora. Arrumam-nos exactamente onde cabemos e onde queremos caber, que não é um sítio qualquer isento de tudo. É um local construído para nós, connosco e também por nós, maleável ao ponto de crescermos ou ficarmos mais pequenos, porque a verdade verdadinha, ainda que cruel, é que não temos sempre o mesmo tamanho, vejo isso por mim, nem sequer preciso de ir longe. 
A nossa casa se nos soltar deixa-nos saudades. Os locais, as coisas, as pessoas às quais pertencemos ao longo da vida fazem-nos sempre muita falta. Quando desaparecem levam bocados que guardaram  no tempo e deixam-nos outros. Pensando bem, até talvez seja este um dos motivos da continuidade do mundo. Nada morre definitivamente. Se tudo morresse de todo, de morte sentida, provavelmente as coisas seriam diferentes. Os cortes levariam por certo as maravilhas da evolução.

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