segunda-feira, 9 de julho de 2012

Remédios

Ao deparar-me com uma reportagem que fala dos filhos de mães reclusas relembro uma experiência longa que já vivi, perto de algumas delas. Não é fácil a realidade. Trata invariavelmente um reconhecimento público de que a figura que deveria constituir um exemplo, não o constitui, porque cometeu um qualquer crime que lhe rendeu o encarceramento, durante um determinado período de tempo. Falham um conjunto de situações e o crescimento não se compadece com falhas. Adapta-se, resigna-se, resilia-se, mas sente-se. Mais com umas coisas do que com outras. Sente figuras de referência frágeis, que normalmente se defendem com unhas e dentes, provavelmente porque lhes sentem a fraqueza, tentando, num acto heróico e poucas vezes reconhecido pela envolta, desculpá-los. Sente um mundo um tanto ou quanto estranho, que lhe nega a pertença confortável a um local concreto, onde estariam pessoas que lhes guardariam a existência, mas que não estão, nem guardam. Sente um misto de emoções fortes relativamente ao que está certo e está errado, e aqui, arrisco dizer, é talvez das dificuldades mais difíceis de ultrapassar. Limam-se caminhos, tenta-se criar estruturas de apoio que por muito que sejam boas não correspondem nunca ao mínimo exigível. É uma pena esta constatação, mas não correspondem de facto, é preciso reconhecê-lo. Nem digo que seja por falta de investimento, será mais pela impossibilidade de substituir tudo o que uma criança necessita de ter para crescer em consonância com o mundo. E que pretendo eu com tal constatação? Pretenderei chorar problemas sem solução? Não é o caso. Pretendia apenas uma sensibilização para o assunto, dado que encontro mais indignações pouco produtivas, do que debruces sérios sobre o assunto, e consequentes medidas de acompanhamento e compreensão. Não está tudo bem no que toca ao assunto. Está tudo muito longe de estar bem. E os culpados, se é que os há, não são os indisciplinados, os maus alunos, os que roubam o que podem para aniquilar vazios de alma. Que nunca enchem, claro, a alma não enche dessas coisas. Enche de outras que eles muitas vezes não conhecem, porque nunca tiveram.

( Sim, o mundo também são situações sem grande solução e sem remédios capazes. É uma pena, mas é. Falar do assunto talvez não seja demais, por pouco que nos traga. Trará ao menos a consciência.)

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