quarta-feira, 11 de julho de 2012

Memórias

Lembro-me sempre de o ver a chupar rebuçados do velho sentado no banco. Os olhos apresentavam uma expressão alucinada, como se dentro daquela cabeça existissem histórias de outros mundos impossíveis de compreender, que lhe escorriam para fora do corpo e deixavam a envolta curiosa sobre o que lá iria dentro. Não me acontece muitas vezes. Não gosto de invadir espaços que me são vedados quer seja por vontade ou por medo, por salvaguarda, pelo que for. Da boca não lhe saía grande coisa a não ser a expressão de alguma dor sentida nos ossos dos joelhos que já não eram bem osso, eram um qualquer substituto que lhe cravaram na parte articulada das pernas. Em tempos contava esse dia com uma clareza de quem viu e sentiu que o escarafunchavam com força e empenho com um martelo e um escopo, tal e qual ele fosse uma pedra pronta para lapidar. Num instante colocaram-lhe qualquer coisa no lugar que lhe permitiu continuar a movimentar-se nas ruas da aldeia em direcção ao cemitério batido pelo vento. O cemitério era um sitio muito querido e pouco povoado, onde o silêncio lhe permitia uma proximidade relativa com o sossego que nunca conseguiu alcançar. Por vezes era estremunhado. Impedido de continuar no embalo dos ciprestes altos e magros e obrigado a regressar à vida, ora por Violeta, também ela já finada, ora por Florinda, uma mulher detestável que enterrou um braço e uma filha muito cedo. Mesmo assim, combalida de corpo e de alma, reunia velhacaria suficiente para empestar os locais onde entrava com um ar pesado e feroz que assustava as crianças da aldeia. Eu às vezes fugia dela. escondia-me com o meu primo Luís numa esquina de um muro quando ela passava, numa crença ingénua de que não éramos vistos. Éramos. Éramos sempre vistos, mais ou menos como o meu filho hoje é visto agachado no fundo da escada onde me espera no meio das flores que ele julga que o tornam invisível. Luís está longe. Descobriu-se uma doença malvada, acromegalia, que lhe faz crescer as extremidades do corpo devagarinho. Não o vejo há muito, mas disseram-me que a doença está controlada, uma boa notícia, sem dúvida. Vera também está longe. Chegava-me sempre com o verão e com o irmão Miguel que entretanto casou com uma mulata roliça de quem tem dois filhos loiros e de olhos azuis, vi nas fotografias trazidas pela avó. Há muitas pessoas que vou perdendo com o tempo. Falo aqui de uma ou duas, nem por isso as mais significativas, ocorreram-me estas. Sinto-me amiúde na iminência de perder muitas outras. Deveria ser válida aquela regra que regia algumas famílias em tempos, onde por cada morte deveria haver um nascimento. Não perdemos as pessoas sempre pelos mesmos motivos. Perdemos porque tem de ser, perdemos porque vão embora do mundo, ou então do País e da terra, ou ainda porque não foram suficientemente válidas para nós e por isso não continuaram. E vice versa. Não importa muitas vezes os motivos, importa que perdemos, até porque o lugar para todos é qualquer coisa de inexistente. Não temos lugar para toda a gente, temos lugar para algumas pessoas. Ou melhor poderemos ter para muitas, mas mais ao longe, nas nossas memórias. A minha memória é o sítio que eu conheço mais povoado do mundo. Dizem que pode trazer tristezas e outras afinidades. A mim normalmente traz-me pertenças, bocados, mundos que já foram e já não são. Ou são mas já não estão, sendo apenas porque ainda os sinto.

2 comentários:

  1. Sabes bem o que penso do que escreves; de como aprecio e me é próximo, mas este, este post, está uma pérola! Ninguém comenta isto, Céus? 'Tá tudo alucinado, é o que é... :)

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  2. Paulo obrigada mesmo :):) Jesus, com um comentário destes nem preciso de mais nenhum:):)

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