domingo, 22 de julho de 2012

Lavadeiras

Havia um sítio onde as pessoas matavam a sede mesmo ao lado do local onde as mulheres lavavam a roupa. Os tanques eram grandes e levavam quantidade suficiente para lavar os lençóis brancos das camas, os panos onde se limpava o corpo, as vestes pretas com que se trabalhava e que ficavam guardadas para o fim, não fossem tingir a água e o resto. O trabalho era feito com esmero e cuidado. Tapava-se o ralo com uma rolha de cortiça ou com um trapo amassado, deixava-se correr a água fresca e esfregava-se a roupa com força e genica, para que a brancura imaculada e  a devida limpeza das roupas voltasse a povoar as camas, os corpos, as casas. Das bocas saiam cantigas que libertavam as mulheres que tinham sido presas pela vida que as escolheu. Elas sorriam para fora, enquanto por dentro cresciam ninhos onde nasciam dores de alma, farrapos de tristezas, livros reunidos de palavras vãs que se construíam dentro, e que nunca por nunca ser veriam a luz do dia. Há coisas que não vêm nunca a luz do dia mas que não deixam por isso de ser reais no nosso corpo, como se fosse sensato vivê-las e deixar que a alma se entregue à distância de uma vida. De vez em quando paravam e bebiam água. Uniam as mãos em concha, deixavam-na cair até constituir uma pequena quantidade, e posteriormente faziam com que escorresse para a boca seca e cansada de sol. Mesmo ao lado existia um local onde se podia aliviar o corpo dos excessos, constituído por buracos redondos e solitários, para os quais era necessária uma sustentação considerável a  fim de haver equilíbrio suficiente para que o corpo não caísse em falso no chão. Julguei sempre o local amargo. O excesso de proximidade entre a felicidade e a amargura, entre a sujidade e a limpeza, entre o que nos apoquenta e o que nos alivia. No final da tarde, já o sol ia baixo, subiam todas a longa ladeira que as separava do mundo próprio, e deixavam para trás o outro. Debaixo do braço seguia o açafate cheinho de roupa fresca, de cores revigoradas, de água que escorreria e as voltaria a deixar secas e tísicas no arame do quintal.

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