terça-feira, 10 de janeiro de 2017

abelha

Por vezes descobrimos que não conhecemos os outros. Não os outros que passam depressa, na sua vida, mas os que dão passos bem perto, num ziguezague impossível de acompanhar, dentro da nossa. Lembro-me muito bem de ser pequena e apreciar pensar que acompanhava os cubos pretos da calçada branca. De saltitar de quadrado em quadrado, de tentar correr nas as ondas do desenho, de dar passadas gigantescas que me permitissem não dar parte fraca e não cair no chão da diferença. Conseguia quase sempre, e como prémio no final do corredor trabalhado, estava um senhor que vendia pipocas. Nessa altura esquecia tudo e dirigia o meu corpo para o doce que cheirava a mel. Mel faz-me lembrar muito os favos que Manuel trazia desde sempre das colmeias das abelhas. Nunca fui com ele, tinha medo das picadas, como se a dor de um ferrão fosse alguma coisa perante a vida. Nunca me tocaram em altura alguma, talvez porque os animais são nossos amigos e me quiseram resguardar as forças para os dias seguintes. Uma vez pousou uma no meu ouvido, falando em abelhas. Zumbiu zangada durante muito tempo, eu tinha-lhe invadido o roseiral, fez com que eu estivesse quieta uns bons minutos até se decidir abandonar o meu corpo. Fiquei assustada, mas ainda assim, e vencido o medo, fui atrás dela. Espreitei-a de perto. Percorri-lhe os voos, cheirei-lhe as flores, saltei de canteiro em canteiro, e quando dei por isso estava num quintal alheio de uma casa estranha, onde morava uma bruxa má, diziam as vozes do povo. Era uma velha cega que naquele dia comia maças, num cenário fantasma e mais velho do que ela. Cheguei-lhe bem perto e toquei-lhe o nariz. Sacudiu-me, deve ter-me julgado um insecto, uma mosca, uma melga, uma borboleta, um zangão, qualquer coisa que ainda não descobri ser certo ou errado. Soprei de longe os seus cabelos, e ela fez um gesto brusco, como se esperasse matar alguma coisa que lhe tivesse poisado a velhice. Nesse exacto momento, recuei. Senti-lhe a fragilidade, comecei a cheirar-lhe o medo, li-lhe nas entranhas das rugas a preocupação, a tristeza, o desalento. Pé ante pé fui à minha vida. 

Não é certo importunar a fragilidade, devemos respeitá-la. A abelha tinha tido esse cuidado, mesmo sem me conhecer. 

2 comentários:

  1. quando era miúda também andava assim em cima dos desenhos da calçada Portuguesa.
    fizeste-me recuar tanto, agora. foi muito bom...

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