Estava um vento muito frio. Embrulhada calcorreava o passeio de pedra grosseira, raiada a riscas e desenhos azuis escuros que formam o brasão do Município. Houve uma vez, lembra-se perfeitamente, em que encontrou os estudantes universitários a contar as pedrinhas brancas, imensas, a maioria, enquanto no redor um pequeno grupo dançava a dança da chuva até que chovesse debaixo do sol de inverno. Não parariam até que tal acontecesse, ou até que algum veterano ordenasse. Não parariam ainda a contagem até que o número fosse exactamente o verdadeiro, apurado ao calhas por algum iluminado, ou até que algum veterano ordenasse. Não cessariam também as cervejas, nos que olhavam e governavam embrulhados em capas pretas, devidamente acomodados debaixo do toldo verde do café ao lado, até que a vontade as quisesse. Nada pararia. Ela também não. Caminhava apressadamente no tardio da hora, precisava de um jornal onde lesse isto e aquilo, de um café que a trouxesse de volta ao mundo além dos sonhos, precisava ainda de levar com o vento na cara, muito embora não goste dele, sente-se sempre afrontada pela sua impertinência. A chuva, por exemplo, permite-lhe a resguarda debaixo de um chapéu de lacinhos que se enrola numa fitinha quando não apresenta préstimo, e que lhe compõe a indumentária. O sol, e por sua vez, consegue ser estorvado por um chapéu de aba larga, naturalmente de verga, que enfeita a cabeça das mulheres com uma elegância ímpar. Mas o vento, esse endiabrado, insiste em causar-lhe transtornos, em incomodá-la muito além daquilo que ela consegue compor e controlar. Não obstante, e ainda que presumido, não se verifica suficientemente capaz de lhe limitar os propósitos. Eventualmente uma questão de tira-teimas, um ganhas tu ou ganho eu, um jogo que ao fim e ao cabo não apresenta vencidos nem vencedores. Fico a olhá-la ao longe a fingir que espreito a imensidão do vazio. Vejo-a, cuidadosa, a ajeitar a roupa para mais perto do corpo. Abriga-se dele, do vento, esse endemoniado, não vá o estupor ter a ousadia de lhe roubar o cheiro que guarda da noite, já com um travo de saudade, colado nas entranhas da pele. Nunca lhe perdoaria.
O que me faz reflectir... Todos os textos que aqui publico são de minha autoria, e as personagens são fictícias. Excluem-se aqueles em que directamente falo de mim, ou das minhas opiniões, ou onde utilizo especificação directa para o efeito.
domingo, 11 de novembro de 2012
A minha opinião.
Nem sempre me apetece focar assuntos polémicos. Mantenho-me normalmente à distância do que me parece ser razoável em medida de opinião, uma vez que estas são sempre pessoais. Mas existem assuntos que excedem o razoável. Já ouvi o discurso de Isabel Jonet de fio a pavio. Já li blogs, jornais, vi redes sociais, já falei e já ouvi. E parece-me, honestamente, que algum equivoco se instalou na situação. Primeiro, faz-me todo o sentido o que ela disse. Segundo, o que ela proclama em termos de gestão de recursos familiares já eu faço há muito, porque é assim que quero, acho, e tenho de fazer. Terceiro, ainda que ela se tivesse verdadeiramente excedido, o que volto a dizer, não considero, de forma nenhuma merecia ser alvo desta onda de indignações. Ser voluntária no Banco Alimentar, conhecer a realidade da pobreza do País, dar-se a esta causa nobre durante anos a fio é para poucos. Encontrar-se na liderança de uma causa que ajuda a pobreza, é para menos ainda, porque acarta repercussões diversas a vários níveis, por vezes difíceis de gerir. Como esta situação, por exemplo. Situação à qual ela nunca se sujeitaria se estivesse, como a maioria de nós, sentadinha no sofá a beber cházinho e a comer bolachinhas com pepitas de chocolate, fartos de palavras vazias, enquanto na televisão, nas ruas e no País, outro alguém desse a alma e o corpo ao manifesto.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Frio
Que nada é por acaso, já todos sabemos (sabemos?). Esvai-se tal facto da memória, puro esquecimento, desatenção aos pormenores, estratégia? Pois, não sei. Olho por exemplo o andar. Diz-me coisas, tantas coisas. Diz-me coisas o andar do velho cansado e triste, combalido, cambaleante, arrumado numa bengala tosca e retorcida. Diz-me coisas o andar rápido do meu filho, desengonçado, traquina, despachado. Diz-me coisas o andar calmo do meu pai, de mãos invariavelmente coladas atrás das costas, cabeça baixa, passos certos e ritmados. Diz-me coisas o andar da jovem que abana delicadamente as ancas para um lado e para o outro enquanto os olhos miram a sombra, estará bonita? Diz-me coisas o andar da cozinheira ligeiramente tombado para a frente, nuns passos mortos e apagados, quase tão apagados como os olhos que espreitam por detrás de uns óculos de massa amarela que lhe possibilitam ver os netos a crescer, devagarinho (é tão bom ver crescer devagarinho). Dizia-me coisas o andar da minha bisa, apressado, sempre com um destino qualquer, completamente avesso ao andar do meu avó, que nunca ia para lugar nenhum. Diz-me coisas o andar do jovem que semanalmente vem ter comigo carregado de vida que se quer soltar por todos os poros do corpo, e que ele guarda, sem grande jeito ou consequência, quase preso nas pernas e até nos braços. Diz-me coisas o andar elegante da senhora que toma café comigo todas as manhãs, expressivo e decidido, mas que por vezes, em dias cinzentos que ninguém vê, se transforma num andar vagaroso, lento e demorado, completamente denunciador de um estado de espírito muito menor do que ela. Nesse dias, percebo perfeitamente, eleva a cabeça para além do razoável e pincela o rosto com pérolas de oiro, chuvisca-se de gotinhas minúsculas do seu melhor perfume e refugia-se assim do mundo, quase encoberta, discreta aos olhos de toda a gente. Deixa porém que lhe escapem, por entre os disfarces criteriosamente escolhidos a dedo, rasgos internos nos passos, nos olhos, nos risos, nos simples gestos com que arruma os cabelos com o lenço colorido onde se abriga. Do frio.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
(...)
Pode ser Outono ou Inverno, dia ou noite, aqui ou ali. Há chuva e no meu rádio toca no woman no cry, um clássico, impossível não gostar. Mas podia tocar outra coisa qualquer, há pequenas particularidades que aprecio, sejam elas quais forem, não me ocupam desde que mais exista. Dentro das primazias mas menor, muito menor do que a maior, temos a chuva, já ela importantíssima. Os dias de chuva convidam-me ao sossego e eu gosto dele mesmo nos dias de sol. Estes últimos têm porém o pormenor de me vascolhejarem por dentro, de acordarem partes de mim ainda que outras queiram apenas estar. Não somos completamente consistentes, digo eu. Somos repartidos em corpúsculos autónomos, em fragmentos particulares uns num lado outros no outro, muito embora o que possa valer seja a totalidade. Ou não. Por isso, e só por isso, talvez seja mesmo possível eu delinear olhos no espelho, por exemplo, enquanto o resto de mim não está. Ainda que no reflexo, e revelasse ele tudo o que eu encerro, se avistasse todo um sentimento, muitíssimo além de uns olhos tingidos a negro pelas minhas mãos, trémulas e imprecisas.
Nós
Fico sempre muito satisfeita quando se inicia à minha frente uma discussão feminina, por nada. Porque muitas de nós têm o extraordinário condão de conseguir transformar tudo em problemas. E conseguimos até, pasme-se quem disto não sabe, que aquele nada pareça mesmo um problema verdadeiro. Puxa pá, somos mesmo boas nisto.
( Sim, sei que a exclusividade da proeza não é nossa. Mas há que levar os louros a quem os merece. E se não é só nossa, é no mínimo muito mais nossa.)
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