domingo, 11 de novembro de 2012

Vento

Estava um vento muito frio. Embrulhada calcorreava o passeio de pedra grosseira, raiada a riscas e desenhos azuis escuros que formam o brasão do Município. Houve uma vez, lembra-se perfeitamente, em que encontrou os estudantes universitários a contar as pedrinhas brancas, imensas, a maioria, enquanto no redor um pequeno grupo dançava a dança da chuva até que chovesse debaixo do sol de inverno. Não parariam até que tal acontecesse, ou até que algum veterano ordenasse. Não parariam ainda a contagem até que o número fosse exactamente o verdadeiro, apurado ao calhas por algum iluminado, ou até que algum veterano ordenasse. Não cessariam também as cervejas, nos que olhavam e governavam embrulhados em capas pretas, devidamente acomodados debaixo do toldo verde do café ao lado, até que a vontade as quisesse. Nada pararia. Ela também não. Caminhava apressadamente no tardio da hora, precisava de um jornal onde lesse isto e aquilo, de um café que a trouxesse de volta ao mundo além dos sonhos, precisava ainda de levar com o vento na cara, muito embora não goste dele, sente-se sempre afrontada pela sua impertinência. A chuva, por exemplo, permite-lhe a resguarda debaixo de um chapéu de lacinhos que se enrola numa fitinha quando não apresenta préstimo, e que lhe compõe a indumentária. O sol, e por sua vez, consegue ser estorvado por um chapéu de aba larga, naturalmente de verga, que enfeita a cabeça das mulheres com uma elegância ímpar. Mas o vento, esse endiabrado, insiste em causar-lhe transtornos, em  incomodá-la muito além daquilo que ela consegue compor e controlar. Não obstante, e ainda que presumido, não se verifica suficientemente capaz de lhe limitar os propósitos. Eventualmente uma questão de tira-teimas, um ganhas tu ou ganho eu, um jogo que ao fim e ao cabo não apresenta vencidos nem vencedores. Fico a olhá-la ao longe a fingir que espreito a imensidão do vazio. Vejo-a, cuidadosa, a ajeitar a roupa para mais perto do corpo. Abriga-se dele, do vento, esse endemoniado, não vá o estupor ter a ousadia de lhe roubar o cheiro que guarda da noite, já com um travo de saudade, colado nas entranhas da pele. Nunca lhe perdoaria.

4 comentários:

  1. CF, tudo o que escreve convida a uma reflexão.

    Gosto disso.

    Sorriso :)

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  2. Ana, faça isso. Sorrisos para si também :)

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  3. O vento safado jamais chega ao âmago do coração. O outro, o verdadeiramente poderoso, circula, como o sangue, muitas vezes por ele... :)

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    1. O verdadeiramente poderoso é de tal forma que nos sustenta, Paulo. E mais não queremos nem precisamos. Corre-nos no sangue é isso. E o que nos corre no sangue, é a nossa vida... (beijinhos :))

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