sábado, 17 de novembro de 2012

das horas

Por vezes amanhece tarde, como se tal fosse possível. As manhãs nascem sempre a seguir às noites, exactamente onde devem nascer, a não ser quando alguma hora se estende ao infinito e se transforma em tempos esquecidos que não andam, em vidas presas que não saem, em suspiros arrancados a ferros por movimentos cansados. Cansa quando nos amanhece tarde e o nosso corpo ressente a demora, arfa de desejos cingidos aos dias que correm em compasso, agora um, depois o outro, numa melodia tocada em desespero por um instrumento qualquer. Afinal é possível a dissonância. As manhãs da hora certa só nascem todos os dias com o clarear da aurora, nascem no calendário que temos pendurado na porta do frigorífico da cozinha que olhamos de relance entre o iogurte magro e o haagen dazs, ou nos iPhones que tocam aos ouvidos para lembrar que é agora, um despertar que nos acorda quase sempre sem querermos. Mas o nosso corpo tem horas sentidas. Vive de outras manhãs e de outras noites, completamente perdido entre o tempo que quer e o tempo que tem, um contrabalanço que o obriga a adiar para a noite o que não pode ser cedo. A pedir um desejo, a deixar que em mim entrasse a utopia, e poderia muito bem considerar a questão. No cardápio escolheria um meio dia fresco, uma sesta dormida depois de um almoço farto, um sol só morno mas sem fim à vista numa chaise longue perfeita onde caberia o que eu quero. Eventualmente, mais logo, far-se-ia noite. Sakamoto no piano, sempre. E um Dom Pérignon a acompanhar. 

8 comentários:

  1. Gostei particularmente:
    "Vive de outras manhãs e de outras noites, completamente perdido entre o tempo que quer e o tempo que tem, um contrabalanço que o obriga a adiar para a noite o que não pode ser cedo."

    Boa tarde CF.

    Sorrisos

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  2. Equilíbrios, Ana. É sempre aí o segredo... Sorrisos para si também. Bom fim de semana :)

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  3. Desculpa lá, mas haagen dazs e dom pérignon só em doses módicas, qu'eu sei :)

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    1. Eu sou moderada Paulo, caso não saibas. Mas há coisas e coisas, e essas, por exemplo, dão-me cabo da moderação...

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  4. Tu...? Moderada...? Estás redondamente enganada: és excessiva, demasiadamente excessiva. E doida varrida :)

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    1. :) Não estou enganada, não. Sei disso, sou muitas vezes excessiva. Mas há coisas onde me modero, pelo menos na maioria das vezes. Essas de que falei, por exemplo, e por razões justificadas...
      (O que é isso de doida varrida? Não percebi :)...

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  5. Onde andas?! Isolada nalguma montanha coberta de neve no alto? :):) Este e o outro lá de cima fizeram apetecer-me Minho :):)
    Beijinho

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  6. Minha querida, não estou no Minho, estou por cá mesmo. Pelo menos fisicamente. É que essa da montanha com neve no alto era gira para o descanso. Beijinho :)

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