sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Experiências

Todos têm a mania de me dizer que o mundo é redondo. A própria astronomia manda satélites para o espaço, fotografa, prova e comprova que o mundo é uma bola gigantesca suspensa na atmosfera à qual nos mantemos ligados pela força da gravidade. Eu própria já vi inúmeros documentários, já estudei o sistema solar de fio a pavio, já decorei o nome de todos os planetas, uns maiores outros mais pequenos, uns mais quentes outros mais frios, uns longe outros perto, alguns detentores de uns anéis circundantes que me parecem lindíssimos, todos com a particularidade de terem uma forma mais ou menos redonda. Assim, à vista de qualquer um. O meu próprio filho, detentor de um globo azul que habita a secretária do quarto, já me explicou a magia do mundo no qual eu não acredito, já me ensinou que no hemisfério norte ficam uns países e no hemisfério sul ficam outros, já me explicou que na África do Sul ninguém vive de cabeça para baixo, já me disse que a água do Oceano Polar Antárctico não cai para o vazio do nada. No mundo que eu conheço, sem ser de fotografias, livros, bolas redondas enfeitadas com desenhos de Países, no único que eu experimento para além dos limites do razoável, não há um círculo. Há montes e vales, precipícios e cavernas profundas, sítios onde há muita gente e outros onde não há nada nem ninguém, locais privilegiados onde poucos chegam, lugares inexplorados que nem eu própria conheço. A harmonia do círculo é qualquer coisa que eu não reconheço porque não a vivo, não a encontro, não posso acreditá-la nem confirmá-la como possível na natureza, muito embora me digam, de fontes seguras, que o mundo é redondo. Posso até achar que se ele é perfeito, eu, e em consequência, também deveria de ser. Também deveria, e em vez de me apresentar em protuberância, ser detentora de um círculo interno onde tudo se encontrasse devidamente distribuído, onde nada caísse nem resvalasse, onde não houvessem vazios ou cheios, onde uma cadeia alimentar perfeita e natural mantivesse a ordem e o seguimento do meu corpo. É que o meu corpo só acredita naquilo que sente, naquilo que experimenta e naquilo que toca, nos cheiros que já cheirou e nos sabores que já provou. O resto, o resto são exterioridades, sítios impossíveis, coisas que sabemos serem sem experimentarmos, muito embora as possamos validar pelo que se crê universal e pelo que construímos no imaginário, um sítio onde tudo acontece sem o rigor dos sentidos. São sempre frágeis conclusões, ainda que leis cientificas, que apenas sabemos. Os sentidos fazem-nos muita falta. Trazem tudo cá para dentro, e depois sim, somos gente que sabe do que fala.

2 comentários:

  1. Faz-me todo o sentido...bom para pensar.

    :)

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  2. :) Ana faça isso. Nada nos transporta mais cá para dentro de nós...

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