sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Frio

Que nada é por acaso, já todos sabemos (sabemos?). Esvai-se tal facto da memória, puro esquecimento, desatenção aos pormenores, estratégia? Pois, não sei. Olho por exemplo o andar. Diz-me coisas, tantas coisas. Diz-me coisas o andar do velho cansado e triste, combalido, cambaleante, arrumado numa bengala tosca e retorcida. Diz-me coisas o andar rápido do meu filho, desengonçado, traquina, despachado. Diz-me coisas o andar calmo do meu pai, de mãos invariavelmente coladas atrás das costas, cabeça baixa, passos certos e ritmados. Diz-me coisas o andar da jovem que abana delicadamente as ancas para um lado e para o outro enquanto os olhos miram a sombra, estará bonita? Diz-me coisas o andar da cozinheira ligeiramente tombado para a frente, nuns passos mortos e apagados, quase tão apagados como  os olhos que espreitam por detrás de uns óculos de massa amarela que lhe possibilitam ver os netos a crescer, devagarinho (é tão bom ver crescer devagarinho). Dizia-me coisas o andar da minha bisa, apressado, sempre com um destino qualquer, completamente avesso ao andar do meu avó, que nunca ia para lugar nenhum. Diz-me coisas o andar do jovem que semanalmente vem ter comigo carregado de vida que se quer soltar por todos os poros do corpo, e que ele guarda, sem grande jeito ou consequência, quase preso nas pernas e até nos braços. Diz-me coisas o andar elegante da senhora que toma café comigo todas as manhãs, expressivo e decidido,  mas que por vezes, em dias cinzentos que ninguém vê, se transforma num andar vagaroso, lento e demorado, completamente denunciador de um estado de espírito muito menor do que ela. Nesse dias, percebo perfeitamente, eleva a cabeça para além do razoável e pincela o rosto com pérolas de oiro, chuvisca-se de gotinhas minúsculas do seu melhor perfume e refugia-se assim do mundo, quase encoberta, discreta aos olhos de toda a gente. Deixa porém que lhe escapem, por entre os disfarces criteriosamente escolhidos a dedo, rasgos internos nos passos, nos olhos, nos  risos, nos simples gestos com que arruma os cabelos com o lenço colorido onde se abriga. Do frio. 

4 comentários:

  1. Pois é, tantas coisas traduzem um determinado andar, uma determinada postura...

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    1. Cat, tudo em nós traduz coisas. Coisas simples, coisas banais, coisas complexas, por aí fora...

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  2. Tão bonito...gostei

    Deixo-lhe sorrisos :)

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    1. Ana, obrigado. Sorrisos para si também :)

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