terça-feira, 13 de novembro de 2012

Rua

Já encontrei sobre ela inúmeras fotografias a preto e branco onde se podem ver bicicletas a pedal, pessoas, uma fonte que deita água em repuxo no centro da praça. Muitas portas abertas com vitrinas imensas recheadas de casacos de fato e calças vincadas, chapéus de aba, tecidos e vestidos de chita floridos. Por vezes em fotografias encontro vida. Encerram histórias, movimentos guardados num clic impresso em papel brilhante que cuida para todo o sempre instantes únicos, como se perpetuasse ao infinito o rigor dos segundos, a criança que sorri, o velho que pedala, a senhora que olha e cobiça a montra bonita. Hoje passei cedo. Na rua a vida aparece como que esmorecida, apagada debaixo das memórias de uma cidade que já foi bem mais ocupada. Na loja dos três balcões, local que frequento com alguma assiduidade, encontro o senhor de sempre, misturado no espaço que já é seu por direito, munido do metro que mede os tecidos empilhados em filas garridas por detrás do mostrador. Continuam a existir inúmeras caixinhas de cartão com botões coloridos, pequenos e grandes, de plástico ou forrados a tecido, com ou sem buraquinhos. Uma delicia. Continuam a existir os carrinhos de linhas de costura, de renda ou de bordar, agulhas e alfinetes, lenços de bolso com iniciais bordadas, entremeios e fitas estrafor, para além de uma considerável panóplia de artigos de vestuário feminino e masculino, de criança e de recém nascido. Normalmente compro sempre a mesma coisa. Um metro de um, outro metro de outro, eventualmente ainda mais um. Dois dedos de conversa, o comércio fraqueja, a rua fica, devagarinho, vazia. Agradeço a simpatia, saio, e no portal de pedra quase esbarro no louco. Falava muito alto, gesticulava efusivamente com os braços, sacudia a longa cabeleira encardida para trás das orelhas e sorria muito, provavelmente feliz. 
A rua estava quase deserta. Lojas fecharam, dói-me francamente o coração. A loucura, essa, não sei se ainda me incomoda ou se já não. 

2 comentários:

  1. A loucura é bem mais sã do que aparenta. Bem mais saudável que a inquietudo do deserto. Quando o há.

    Beijos

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  2. A loucura é somente um mundo à parte. Mas um mundo, de igual forma. Gosto muito, de pensar assim... :)

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