terça-feira, 27 de novembro de 2012

Fandango

Existem pessoas que julgam que o mundo cai a seus pés mal elas passam na estrada, as portas abrem, os carros param, os tapetes estendem-se e ficam vermelhos de repente, mesmo que sejam pretos, azuis ou às bolinhas. Não quero saber disso, estou-me nas tintas para os supremos da existência, os que atingem aquele lugar de topo onde o vento parece ser forte e levar com ele todas as ideias, todas as capacidades, tudo o que é sensato, e apenas deixa a opacidade de uma caixa rodeada de ossos e sem mais nada, onde só prolifera rataria e nichos de supremacia. Por mim podem até deixar-se estar nos píncaros da existência, inatingíveis, magnânimos, capazes de ser donos deste mundo e do outro, de governar a aldeia, a cidade ou o país, de ficarem plantados no campanário da igreja a ouvir o sino tocar nas orelhas e a sentir as rajadas a sacudir-lhe os interstícios da alma. Só não consigo muito bem perdoar, a eles e aos outros, o excessivo mando que por vezes emanam. Faz-me lembrar Fernanda, uma criatura matriarca com quem tive o desprazer de trabalhar um dia. Não havia gente que não vergasse na sua passagem, que não lhe venerasse os ditos, que não absorvesse o que dizia como se daquela boca nascessem apenas e só doutrinas absolutas, suficientes para que o mundo girasse a seus pés. Até na dança do rancho, num grupo que quase lhe pertencia. O fandango, por exemplo, das minhas favoritas e uma das que toda a gente admirava, era o primeiro a desaparecer do rol mal os azeites da senhora desciam em si. Irritava-a os passos certos e ritmados dos moços que saltavam no palco a estremecer as tábuas do chão, ficava vermelha de cólera contida nas carnes gordas e flácidas, eriçavam-lhe os cabelos amarelos e encrespados que lhe guardavam a cara redonda e gigantesca que nunca sorria. Hoje, não há fandango, gritava, e todos obedeciam. 
Um dia apareceu-me a arfar pela casa adentro rodeada de vestes pretas do Minho, carregadinha de oiro até ao pescoço. O seu Zé estava a passar mal, não suportou as reviravoltas da dança, não aguentou o vira da nossa terra e não teve braços para acolher Fernanda, a grande, e para a fazer girar até ao infinito da dança, que terminou logo ali. A tensão tinha disparado pelo corpo acima, a língua tinha-se enrolado para dentro, os olhos tinham-se revirado e só o pronto auxílio de muito povo permitiu ao Zé continuar na terra dos vivos, a abraçar Fernanda. Por momentos ainda julguei que a aflição e o préstimo das gentes lhe amansasse o corpo. Lhe comesse alguma bravura do ser, nem que fosse coisa pouca, e a fizesse olhar pessoas como pessoas e  não como uns quaisquer palermas que giram trôpegos à volta de si, a bailar ao toque de músicas cantadas numa única voz, sem reco-recos, sem pandeiretas, sem bandolins. Palermice da minha parte, pura ingenuidade, que já deveria na época saber que quem é muito grande dificilmente sente para além dos minutos da aflição e da gratidão, meros instantes rapidamente esvaídos na grandeza do que se julga ser. 
Ouvi dizer que o rancho ainda dança e que o fandango ainda cessa. Eu por cá, continuo a gostar de o ouvir. E de o ver, dançado a preceito e por quem o saiba fazer, com os pés retrocidos e cadenciados, toc, retoc, toc toc. Ora vejam só:



4 comentários:

  1. Também gosto muito do fandango. Faz-me lembrar uma luta de galos e não há nada que mais encante uma galinha do que uma boa luta de confrades... (Calma, eu não sou a confreira Dona Fernanda... :p )

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    1. Sabes, não coloquei aqui, por não ser o tradicional, mas já vi fandango dançado divinamente por mulheres, no Rancho Folclórico dos Riachos, aqui no Ribatejo :)
      Mas sim Paulo, de facto é uma dança de homens. Se dançado com arte, vale mesmo a pena ver... As galinhas, apreciam :)

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  2. Sempre me fascinou o fandango, creio que tenho primos que ainda o dominam :)

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    1. Sputnick, é fascinante de facto. A música, a dança e arte de pés.... :)

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