quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Gertrudes

Não gosto de palavras recolhidas à força pela brutidade da minha boca. Ficam presas algures entre a língua e o estômago e provocam-me um refluxo gástrico considerável que me desconforta desde a planta dos pés até ao pico do cérebro. Quando tal coisa me acontece, quando uma parte de mim ordena ao resto que se cale, lembro-me sempre de Gertrudes, a sábia. Gertrudes era uma velha que vestia preto não por devoção, mas por deferência. Tinha o estranho hábito de clamar a céu aberto, sempre que se proporcionava, um cala-te boca que se ouvia até à aldeia vizinha, caso o vento estivesse de feição. Determinara em tempos e sob diversos propósitos, que haviam palavras que não eram para ser ditas, situações que deveriam ser abafadas, verdades que tinham de ser mortas ainda antes de o serem. Sabia muito a malvada velha, mas era um ser fechado que chispava dizeres só com olhos. Percorria a aldeia desde o salão das festas até ao cemitério, munida de um carrinho de mão onde transportava todos os utensílios que precisasse para a serventia do dia, ao mesmo tempo que ia engolindo muito do que tinha a dizer, um bocadinho de cada vez, empurrado com jeito por um respirar mais profundo que arrumava palavras em míseras reentrâncias, ainda livres. Cruzei-me com ela vezes sem conta e assustava-me sempre com o seu ar de exagerado inchaço. Tinha bochechas gordas, ventre opado, uma garganta demasiado saliente e umas pernas balofas prestes a rebentar, tal e qual um chouriço tosco alentejano. Um dia, morreu. Ninguém sabe ao certo porquê, ia a meio de uma caminhada entre um sitio e outro quando deu um grito estridente e caiu para o lado, levando com ela para todo o sempre toneladas de palavras presas ao corpo. Do lado de cá, e por entre as centenas de pessoas que a velaram, ficaram orelhas secas do pouco que ouviram. Do lado de lá, uma alma entupida de frases retardadas responsáveis por um eterno amargo de boca, uma acidez alojada nos buracos das gengivas descarnadas e nos dentes apoderecidos, uma língua retorcida de contrariada que Gertrudes eventualmente ainda guarda, tísica, nos restos de si. De vez em quando, e à medida que se funde de uma vez com a terra, deixa soltar meia dúzia delas, desta feita ao Deus dará. Sei disso porque há dias, em que juro, me passam perto. Sinto-lhes o peso e o cheiro bafiento, húmido e forte, agudizado pelo tempo e pelo caixão que as prendeu até ao dia da soltura. E pela podridão de Gertrudes, a sábia. Finalmente, quase quase vazia. 

2 comentários:

  1. E quantas vezes te apetecia pegar nessas frases escondidas da senhora Gertrudes?

    (disseste bochechas gordas...?)

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  2. Muitas Paulo, muitas. Quanto mais não seja porque sou curiosa, sabes disso :)

    (disse. algo contra bochechas gordas?...)

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