terça-feira, 6 de novembro de 2012

Rosa

Dentro da minha mala repousam panquecas redondas e pequenas que o meu filho esqueceu. Repousam rebuçados de café sem açúcar e caramelos de pinhão El Caserio, um pecado. Na M80 tocam os Sétima Legião e na minha terra, mas não aqui, é feriado municipal. Quando saí pela manhã não haviam carros na rua e na pastelaria do costume grupos de pessoas em traje descontraído desfrutavam dos ares  matutinos. A Dona Rosa dos jornais estava inerte por detrás da banca, ladeada por Anas, Novas Gentes, Marias e outras que tais, enfeitadas com carinhas de cabelos loiros, muito bonitas. Quase que aposto que a Dona Rosa, e a poder, trocava de lugar com elas. Trocava o posto dos dias, os cumprimentos amáveis e despretensiosos dos senhores do banco, os sorrisos afectuosos das senhoras roliças que compram livrinhos de receitas e de croché, o próprio rosto cansado pelos anos e o corpo já velho, pelo mundo onde a beleza e a facilidade se transformam em felicidade, como que numa relação causal, perfeitamente consequente. Deve de ser tão fácil viver assim. Tenho dias em que também a mim me apetece desfazer-me em delicadezas para a Dona Rosa. Apetece-me pegá-la nos braços, afagar-lhe os cabelos amarelados e baços, encostá-la no meu regaço e dar-lhe confortos simples que eu não sei se ela conhece. Toda a gente deveria conhecer o prazer dos confortos simples. Uma pretensão minha estes excessos de inquietação, é o que é. Não tenho nenhum direito a retirar conclusões abusivas do estado dos outros apenas porque os cumprimento e do rosto não lhes retiro emoção, porque não me emitem vida de dentro do corpo que os acolhe, porque não lhes consigo ler nos olhos coisa nenhuma. Entrei no carro e resolvi comer um caramelo de pinhão El Caserio. O açúcar às vezes faz-me falta e os de café não me traziam nada de novo à boca, logo após a bica da manhã.

(A bica da manhã é um dos minutos do meu dia. Quando tenho tempo transforma-se em hora, ou até, na loucura, em horas. Acontece muito pouco. E parece de facto uma coisa tão simples.) 

2 comentários:

  1. E quantas Donas Rosas existem ....

    Ainda há caramelos ? :)

    BJ

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  2. Donas Rosas? Muitas, Ana, muitas... Caramelos? Pois, já não há. Mas devia haver, devia haver... :)

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