sexta-feira, 20 de maio de 2016

sabonetes de lavanda

Tenho sempre uma inveja requintada da imperial e dos caracóis, principalmente em dias de jogo. São aos magotes, homens e mulheres que se encontram na esplanada ao sol morno da tarde, acendem os cigarros, discutem as faltas, os foras de jogo, os golos falhados e os apontados, alguns combinam eventualmente outro encontro glorioso, mais para a noite, polvilhado por pimenta preta ou cantigas de encantar. Passo normalmente de carro, e nunca me junto à festa. Vou sempre em alguma direcção, levo sempre outro caminho, persigo usualmente um importante objectivo, que pode ser comprar uma alface, entregar uma encomenda, pagar uma conta ou trabalhar. Passo com a sensação amena de que não aprecio nada daquilo. Sei de mim para mim mesma que não me sentaria ali, no meio da multidão, de copo na mão, tremoço no prato, sorriso na boca e no rosto. A inveja vem normalmente depois, quando respiro fundo e descubro que a felicidade fácil deveria ser obrigatória de aproveitar. O Deus das pequenas coisas anda ali, e eu nunca o vi. Ainda não foi hoje, mas um dia destes, juro-vos, contrario o corpo e vou experimentar. Se não conseguir encontrá-lo peço o livro de reclamações, escrevo o que tenho a escrever, levanto-me e vou procurá-lo num outro lugar. A loja do Sousa, por exemplo, deve ser um bom lugar para se começar. Descobri que vende uns sabonetes de lavanda lilás de subir aos céus, vou comprar umas caixinhas e colocá-las a perfumar as gavetas do meu quarto. No regresso da loja tudo terá terminado, e posso sentar-me à vontade enquanto a cidade festeja ao longe, já fora dali. Nesse momento peço uma água, respiro fundo, sinto o cheiro da lavanda a entrar pelas minhas narinas, e fico mais sossegada. Acompanhada do meu Deus, serei capaz de ali ficar.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

carpideira

Vi passar um menino pequeno pelas mãos da sua mãezinha. Levava um pirulito na boca, e tinha o ar de quem abre a goela por qualquer contrariedade da sua curta vida. Ia de olhos carrancudos, cabisbaixo, enquanto a senhora insistia que sorrisse, que saltasse, que se entregasse à idade da brincadeira, nunca mais lá voltaria. O pobre infeliz mantinha-se quieto, e perante a impetuosidade da mãe, chorou. Primeiro parou os passos. Depois esticou os lábios uns segundos alongados e cerrou os olhos com muita força, de seguida respirou fundo, e quando regressou a ele já um berro atravessava a Loja dos três balcões, dava a volta pelo Gonçalo das boinas, entrava e saía na ourivesaria e salpicava, já de longe e ao de leve, a casinha dos jornais. Apeteceu-me berrar com ele, naquele exacto momento. Invejei-o descaradamente. Quis tanto o seu grito, cobicei de tal forma o seu ar de desespero infortunado, que me apeteceu levá-lo para casa, colocá-lo no sofá da minha sala sentadinho nas almofadas, alimentá-lo a doces e contrariá-lo, sempre que eu precisasse de chorar. Na falta do meu grito ecoaria o dele, casa afora, noite dentro, a castigar a pobre da vizinhança. Na manhã seguinte ele descansava e eu ia à vida. Liberta pelo corpo esganiçado e solto de uma criança.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

os dias do abandono

Acabei de ler " Os dias do abandono", o extraordinário conto de Elena Ferrante, e percebi que o anonimato a protegeu ao ponto de ela o poder ter escrito. Nenhuma outra pessoa o teria feito, não desta forma, só alguém resguardado escreve isto:

" Não passamos de seres ocasionais. Consumamos e perdemos a vida porque um certo homem, em tempos remotos, lhe apetecia descarregar o caralho dentro de nós, se mostrou amável, nos escolheu entre as mulheres. Confundimos o banal desejo de foder com uma delicadeza que teria por objecto exclusivo a nossa própria pessoa. Gostamos da vontade de foder que ele sente, iludimo-nos e pensamos que é uma vontade de foder só connosco, connosco só. Oh, ele é tão especial e trata-nos de uma maneira tão especial. Damos outro nome, a essa vontade que o seu caralho tem, personaliza-mo-la, chamamos-lhe meu amor. Mas que diabo leve esta história toda, este engano, esta presunção infundada. Do mesmo modo que fodeu uma vez comigo, fode agora com outra, que outra coisa pudera eu julgar que acontecesse? O tempo passa, uma vai-se e chega a vez de outra. Tentei engolir uns tantos comprimidos, queria dormir deitada no mais escuro de mim própria."

A comum das mulheres pode não escrever, mas qualquer uma o pode sentir.

(Estou cansada de ler palavrões. Sou muito cuidadosa com as obscenidades, tive até um certo desconforto no estômago. Deve ser da vergonha.)

terça-feira, 17 de maio de 2016

cura

Comi uma galinha cozida que me caiu mal. Deu-me a volta nas goelas, desceu com relutância, passou pelo meu corpo e não deve ter achado piada ao que encontrou lá dentro, quis sair e eu tentei impedi-la. Engoli em seco, calquei-a com água morna, sentei-me e comecei a ficar zonza, mas a danada da bicha não estava fadada para aquilo, e acabei por ter de lhe fazer a vontade. Há remédios santos e mezinhas históricas que já não se encontram em actividade. Renderam-se aos tempos modernos, às indústrias farmacêuticas, ao capitalismo e à sociedade. Os chás de camomila já não dão sossego, as laranjas já não combatem a constipação, o leite, está mais do que sabido, já não previne a osteoporose, e a canja de galinha já não cura a gripe e a indigestão. Para além do chocolate, claro, o chocolate também já não cumpre em plenitude o que sabemos ser a sua função. Devo dizer que me assiste por tudo isto o direito à reclamação, uma pessoa precisada já não pode contar com o efeito profiláctico, terapêutico e milagroso da alimentação. Das duas uma, ou é tudo de estufa, sem boa maturação, ou os males estão mais fortes, sem cura ou recuperação. 

domingo, 15 de maio de 2016

metamorfose

Não faço a mais pequena ideia do que é transformar amor em ódio. Não consigo conceber no meu fraco corpo essa metamorfose, não por capacidade maior mas por falta de apetência, ou seja, não por qualidade, mas por puro defeito. Deve ser muito mais fácil, quando uma ligação se quebra, olhar para o outro e sentir um enorme desdém. Deve ser mais apaziguador dos sentimentos abalados ofender, atirar com toda a força as pedras que se colheram nos momentos íntimos e arremessá-las com a pujança da zanga, ao local exacto que conhecemos tão bem, ou não tenhamos sido nós a lamber as feridas, tantas vezes... Neste sentir não devem caber os momentos bons que se viveram, poderia nesse caso vingar a danada da tristeza, quem sabe. Não devem caber as alegrias, as conquistas, as descobertas a dois, morre tudo pelas mãos fortes de uma fúria cega, em completo desgoverno. Neste assassínio brusco e violento matam-se os ganhos, mata-se a possibilidade de admiração, mata-se o caminho, o progresso, a ligação, mata-se a dignidade e a alma, mata-se tudo o que poderia continuar a ser vivo. Mas deve ser tão mais fácil, mas tão mais fácil, que no fundo o que eu quero dizer é que invejo muito quem transforma amor em ódio, e que não precisa de sentir tudo o que nos pode trazer, duas pessoas que se perderam uma da outra.

Em hábito defendemos o direito ao básico, à zanga, à tristeza, à alegria e ao medo. Mas na realidade  já sabemos que muitas vezes somos nós próprios que escolhemos o que sentimos, temos uma facilidade tremenda em substituir uma emoção pela outra, eventualmente sem a noção de que essa substituição nos eleva a um caminho opcional, mas não real, alternativo, mas não natural. Ambos têm defeitos e virtudes. A tristeza é seguramente muito mais produtiva, mas a zanga é francamente mais eficaz, muito melhor quando se quer rematar depressa e bem, com um nó completamente cego.

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