quinta-feira, 21 de abril de 2016

gett off


(Foi um dos artistas da minha vida, e esta foi uma das músicas da minha adolescência. Prince era pequeno e o maior dos artistas. Não, não era das botas. Era do talento e da excentricidade.)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

um lugar cómico

Temos a mania, profundamente humana, de adivinhar o que o outro sente, o que pode precisar, o que gosta ou  imagina. Eu incluída, claro, fui até treinada para o fazer com alguma ciência, nos bancos da faculdade. Os livros de hoje já arriscam alguma evolução. Já nos avisam que não há conselhos, que não há aferições, que o trabalho é de sintonia, empatia, validação, compreensão, mas a verdade é que não deve haver nenhum profissional da área que de vez em quando não coloque o pé em ramo verde, não arrisque um insigth que não lhe pertence, não tire palavras da boca, nabos da púcara, não faça uma transferência ou outra, uma contra-transferência, uma projecção, um desassossego, uma identificação. Não há nada a fazer, é da nossa natureza, e receio bem que não haja treino, competência ou ciência que nos balize eficazmente a acção, é errar até doer, sei disso também pela frequência com que se enganam em relação a mim. Por vezes encolho os ombros, outras tantas explico, outras ainda aviso que estão redondamente equivocados, mas as que eu mais aprecio é quando cá dentro, de mim para mim mesma, gozo o prato do tiro ao lado. O olhar radiante, por exemplo, pode ser da maquilhagem. O ar viçoso pode ser da gula, e o cansaço pode advir de uma festa pela madrugada afora, coisa boa, portanto. Não sabemos quase nada disto tudo, mas somos extremamente felizes quando nos enganamos, certíssimos das nossas certezas alheias. Deve ser também isto que faz do mundo um sítio cómico e louco: seremos certamente o único lugar do universo onde sabemos dos outros, muito antes de sabermos de nós. 

terça-feira, 19 de abril de 2016

come chocolates, pequena; come chocolates!

Também eu às vezes não reconheço o momento. Agarro-me a um qualquer instante inflamado, respiro muitas vezes seguidas e sem parar, contorço-me a segurar palavras cá dentro da minha pessoa, a soltá-las e era ver abater quem passasse, quer fosse bicho, pessoa, coisa ou vegetal. Nessas alturas nunca me lembro de pensar na ira própria de particularidades tacanhas, pertenças do género feminino, aquele que se submete às mais diabólicas entidades: homem, hormonas, vaidade. Gostaria de encontrar um remédio para isto tudo, mezinha do antigamente, umas ervas, uns óleos, umas rezas, uma garrafa de azeite a alumiar a santa, uns terços e umas mãos que soubessem benzer e já estava, assunto arrumado, mal acabado, corpo abençoado, que daí em diante não haveria maleita que se entranhasse, TPM que se manifestasse, coração que se apaixonasse, vaidade que acordasse. Um sossego que só visto, apenas conhecido pelos homens, a faixa da população que não faz a mais pequena ideia do que é não saber se queremos dormir ou acordar, beijar ou bater, gritar ou sussurrar, correr ou parar. Só sabemos que queremos comer chocolates. Sempre, mais e mais chocolates.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

não pescam nada da vida

"Folheio" o jornal online com muito menos ânimo do que o faria se o lesse em papel. O Público alicia-me com pequenas notícias no canto inferior direito do meu computador, para depois me atirar à cara, mal leio uma ou duas, que estou a atingir o limite máximo gratuito e que das duas uma, ou assino a mensalidade, ou brevemente fico a ler as gordas e nada mais do que isso. Nem sei se me importo muito com o assunto. Estou farta de política, não ligo nenhuma a futebol, vou-me perdendo com uma ou outra dica cultural, alguma notícia social, um ou outro apelo ao mundo animal e é só, uma tentativa de relaxar ao final do dia, muito pouco eficaz, nada adequada, longíssimo da bolha de relaxamento que ensinei ainda agora à senhora que atendi em último lugar. Disse-me ela que voou para um campo de flores de primavera, e eu estive quase a pedir-lhe que me levasse com ela, mas felizmente desisti e acordei a tempo, mesmo a horas de receber um telefonema que me informou que afinal consegui adquirir o livro em segunda mão que há tanto tempo esperava. Fiquei feliz. Combinei com a senhora a forma da entrega e o pagamento, e, devo dizer-vos, estou cada vez mais encantada com os prazeres da idade. Um conjunto de folhas por três euros, certamente com cheiro a mofo, são o quanto me basta para me fazer sorrir. E nem sequer me importo se vier anotado. A sabedoria em compêndio é extraordinária, e o que eu realmente gosto mesmo é de saber o que os outros sentem disto ou da outra coisa, quer seja proferido, gritado ou rabiscado, num espaço em branco qualquer. Os gajos do Público queriam dez euros. Não pescam mesmo nada desta vida.

terça-feira, 12 de abril de 2016

medos

As crianças têm medo dos tubarões, do escuro e das cobras. Escrevem isto completamente às claras no cartão do jogo, e enfiam com rapidez dentro da caixa. Cá fora, e sob a indicação de escrever a maior força que utilizam para ultrapassar aquele medo, escrevem: "não ir ao mar fundo", "a mãe", ou "ser valente". Os adultos escrevem em segredo e tentam esconder. Alguns desabafam coisas como "não conseguir fazer o meu filho feliz", e cá fora arriscam escrever grandiosidades como "amor" , "alegria", ou "capacidade de dar a volta por cima". Percebo-os na perfeição, estou com eles no medo, na força, na lágrima teimosa que insiste em aparecer quando os olhamos ingénuos aflitos com um "leão", uma "escuridão" ou um "animal comilão". Crescer é perder a capacidade de olhar o mundo de um território onde os sustos são todos pequeninos, mais ou menos controláveis, por vezes inofensivos, e que quase sempre passam com o colo da mãe. Quem já cresceu, por sua vez, ganhou a capacidade de dar esse colo, de matar monstros e bichos, de acender luzes, de curar feridas no joelho e de dar estaladas de mão cheia aos sonhos maus, que por vezes resolvem chegar. Os medos que sobram para esta gente grande são coisas que não se vêm a olho nu. Só se percebem se conseguirmos espreitar bem de dentro dos olhos, do coração e do sangue que corre dentro das veias. Devem ser coisa pouca, deveremos pensar, uns metros de pele, um sorrido no rosto, uma respiração muito forte e parece que passam. Ser grande deve ser mesmo bom. E rápido, deve ser rápido, os medos morrem enquanto o diabo esfrega um olho.


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