segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

daniel

Daniel era o educador "da malta" e nunca me irei esquecer dele. Tinha um ar de garoto entre os garotos, uma barba mal plantada, uns cabelos loiros e um sorriso sempre aberto, e mais, muito mais para nos dar. Brindava a rapaziada com compreensão e companheirismo, regra na medida exacta, respeito no ponto, afecto sem medo, abraços fortes, muito maiores do que ele, um lado a lado, um estou aqui, um nunca me esqueço. Um compromisso. Eles não se fizeram rogados, adoptaram-no num ápice mal entrou, pudera, pensava eu. Colocava-se lado a lado com o resto da equipa, fazia questão de valorizar o próximo, mas a verdade, a única verdade, é que batia aos pontos todos eles, porque fazia tudo com o coração. Jorge, o poderoso, olhava-o de lado, mas que pessoa era aquela que mal chegou e já ganhou lugar de respeito no gang da pesada? Nobre, o gigante, olhava-o de soslaio, ele próprio não era mau, metia respeito pela altura, pelos gritos e pela envergadura, mas sabia que a tendência era oposta. António, homem alto e dedicado, gostava dele. Era o único que também sabia falar devagar em jeito de se ouvir, que ousava dizer que não às directrizes, que fazia valer o saber da dedicação (não me venham com histórias, o que funciona em qualquer tipo de educação é sempre a relação). Um dia foi de férias e nunca mais o consegui ver. Foi ouvir música num triste verão, e o seu coração, quem sabe cansado de tanta bondade, resolveu parar para descansar. A miudagem ficou em choque. Eu entristeci com eles, choramos baixinho e fizemos todos juntos uma pequena homenagem. Enquanto cantávamos na eira, lembramos o ar angélico e singelo de Daniel, o colo sem fim, as frases que ensinava e que escrevemos num papelinho, tal e qual um bolinho da sorte chinês. Colocamos todas elas num saco e passamos à roda, debaixo de um sol forte que nunca aqueceu, e na minha vez desenrolo um pequeno papelinho escrito por João, a graça de todo o grupo - Fui eu que escrevi, o educador Daniel dizia-me sempre isso, nunca mais me vou esquecer. Li, devagar, a beber as letras e as lágrimas, e parece que ainda o oiço a dizer: - minha querida, quem não confia, nunca é de confiar. 

Não sei onde estarás, meu amigo, algures a dar colo ao desconhecido, invejo-lhe a sorte. Nunca me esqueci de ti, e a nossa águia da vigia sabe bem disso (aposto um cigarro em como ainda te lembras dela). 

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Invejo o desconhecido que o tem, se calhar expliquei-me mal... Dele, eventualmente poderei invejar a plenitude de espírito...

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