terça-feira, 15 de dezembro de 2015

razão

Era muito pequenina quando a educação da minha mãe resolveu começar a comparar-me com a menina vizinha. O conhecimento sobre o crescimento dos filhos era de senso comum e de herança, quem acertava era uma sorte, quem falhava acertasse, quem aprendia era inteligente e sensível, quem se escusava errava, com uma frequência assustadora. - Olha ali a Célia, tão boa aluna. Olha a Clarinha, tão certinha e prendadinha. Já viste o Rodrigo, tão obediente? Eu via tudo, claro, muito mais do que ela. Via a Célia boa e a Célia má, olhava a Clarinha certinha e a Clarinha errada, conhecia o Rodrigo obediente e o desobediente. Onde eles realmente me ganhavam aos pontos, admito, era na evidência da distinção. Enquanto no café se sentavam direitinhos ao lado dos pais, eu esperneava no colo do tio Luís, ao balção, enquanto eles se sentavam na missa a rezar, eu brincava na tenda dos ciganos e catava piolhos da cabeça da Susaninha, enquanto eles se sentavam ao Domingo a ver televisão na sofá da salinha, eu esfolava os joelhos na figueira do quintal. Mas a questão é traumática, devo admitir, não há profissional que não falhe, padeiro que não erre o pão, médico que não padeça de constipação, psiquiatra que não tome o seu soporífero predilecto. A minha mãe, essa, viu-se na obrigação de perder o hábito, quiçá da inteligência. O meu pai, o Grande, nunca o adoptou. Na vida há os melhores e os piores, aceito, admito, até posso cultivar, dentro da devida cautela de razão. Mas nos afectos sou feroz, renuncio à comparação, abomino-a, rejeito-a, sou capaz de a amaldiçoar. 

(E a distinção nem sempre nos eleva ao patamar do valor real. A não ser, claro, sobre luzes e holofotes, ao longe, na timidez dos sentidos, na esfera da victória, no País do Pai Natal. Uma vez por ano, pouco mais.)

2 comentários:

  1. A comparação diminui-nos e retira-nos a unicidade que é precisamente o que nos distingue dos outros. Ela empurra-nos para uma espécie de "No man's land", deixando-nos a oscilar entre o que não podemos ser e o que não conseguimos ser, porque o outro, para além de ser o outro, portanto, uma impossibilidade, é também um estereótipo no discurso comparativo. Gostei muito do seu texto.

    Um beijinho, CF :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Leu-me de forma tão certeira, que só lhe consigo mesmo agradecer muito. De coração...

      Um beijinho Miss Smile...

      Eliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores