domingo, 27 de dezembro de 2015

tudo o que eu te dou

Uma história nunca é uma simples história. Uma história tem conexões sem limites de tempo e de espaço, desenrola-se num corpo físico, psíquico, social. Não tem começo nem fim, tem um aglomerado de acontecimentos diversos e dispersos, raros, preciosos, únicos, com várias leituras, vários significados, várias interpretações, dependendo de quem sente, de quem conta, de quem escuta, de quem olha, de quem foge, de quem vem. Ao ouvir uma história de um paciente, sei de fonte segura que a mesmíssima narrativa poderá trazer outros olhos na semana seguinte, que poderá ser relatada com a mesma dinâmica de aflição, ou ser trazida com uma tonalidade de perdão, uma tonelada de ambição, uma réstia de esperança. Nunca ouso catalogar ou concluir, sei que vale sempre por aquele dia, por aquela sessão, por aquele sofrimento intenso que pode desvanecer na manhã seguinte com uma simples noite e um travesseiro sossegado. Jamais interpreto o que quer que seja, sou muito má nisso. Não me cabe definir anseios, perscrutar insights, decidir o que quer que seja sobre quem for, descobrir que no lugar do ódio pareça existir desejo, ou que no limiar daquela dor pode morar um amor. Sou um simples reflexo de quem se senta à minha frente, pouco mais do que um espelho. Sei meia dúzia de técnicas de evacuação de almas, satisfaço-me em devolver o que vejo e em acolher o que me é dado, em doses de parcimónia ou de enxurrada, sempre com a mesma dedicação. Sirvo mesmo para pouco, para muito pouco, e aviso sempre no inicio que não me peçam mais do que o que sei dar. A solução, acredito tanto, vem de quem se senta à minha frente. As respostas nascem sempre da vida alicerçada em tudo, de um corpo que vive e sente muito além de meia dúzia de palavras contadas, enviesadas por um terreno mau. Só ali reside a esperança e a mais pura das verdades. Não me peçam mais, nunca me peçam mais do que este pouco que dou. E também nunca me dêem mais do que esse tanto, que também eu posso precisar.


11 comentários:

  1. Questiono muitas vezes a minha postura como profissional precisamente porque tenho uma abordagem um pouco diferente, dependendo de quem tenho à frente. Tem dias que uma simples ida à casa de banho entre consultas é o suficiente para me debater com a sessão anterior, nomeadamente se pisei ou não algum limite, se fui ou não longe demais. Não me comporto sempre da mesma forma. Percepciono necessidades diferentes e reajo a isso. Sinto algumas vezes, com algumas pessoas, que um espelho é muito pouco. Que é até angustiante ou um desamparo. Só não sei muito bem se é realmente pouco ou se sou eu que dou demais, podendo prejudicar a outra pessoa.

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    1. Mãe Sabichona, cada vez mais acho que o processo terapêutico é uma relação, acima de qualquer coisa, e como tal implica a pessoa do terapeuta tal e qual ela é. A mim, faz-me todo o sentido fazer desta forma, utilizando a técnica, claro, mas mantendo sempre, na medida do que consigo, um papel activo do paciente. É claro que há excepções, e também eu pego ao colo, de vez em quando, e principalmente se sinto que a necessidade que emerge é que eu tome a iniciativa. Nesses casos, não posso deixar a pessoa desamparada... Sabe, acho que a acção vai sempre do que faz sentido a cada um, e por isso também me socorro de vários modelos de intervenção e não de um só, adaptando-os à minha forma de sentir. E é claro, também a minha forma de ser influencia aqui bastante. Não julgo que qualquer decisão da minha vida possa ser tomada ou avaliada por outra pessoa, e como tal transporto tudo isso para a minha acção profissional. Que não sei se é correcta ou incorrecta, é a minha, e enquanto me fizer sentido, será... :) Um beijinho para si...

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    2. Ainda que com variações na abordagem, vejo que estamos em sintonia. Concordo plenamente que terapia é acima de tudo relação e que esta só acontece com as pessoas inteiras, com o que elas são. E também nunca segui fielmente um único modelo de intervenção (nem uma única corrente), por sentir que sou eu que tenho de me adequar ao paciente e não o contrário. Tenho o meu formato base e aquilo com que mais me identifico, claro (por exemplo, as sessões são sempre face a face, não faço avaliações nem testes psicológicos a não ser que exista indicação clara para tal e tenho colegas que começam sempre por aí e não faço contratos terapêuticos, nunca gostei e sempre me recusei a tal porque quero que o compromisso surja do paciente não de mim) mas vou adequando ao que percepciono ser necessário.
      E o que diz da nossa forma de ser, sem dúvida. Por mais profissionais que sejamos, há coisas que não se quantificam nem medem. Se trabalhamos com afectos, o que somos tem de pesar sempre muito e por isso acredito que na escolha do terapeuta o que acaba por pesar mais é a empatia por oposição a correntes ou métodos. Penso também que o meu próprio processo terapêutico influenciou e que acabo por ter uma postura semelhante ao que senti que funcionou comigo.

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    3. Talvez por ser um processo tão complexo, individual e dual ao mesmo tempo, seja tão delicado encontrar qualidade e eficiência, que no fundo é o que a pessoa procura quando nos solicita. O compromisso de se fazer o melhor com o que temos à mão, já me parece um bom princípio, desde que aliado a uma técnica suficiente. Se todos funcionássemos assim, acho que já seria quase perfeito... :)

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  2. Embora, por vezes, precisemos que alguém elabore as perguntas certas, temos de ser nós a encontrar as respostas. Aquelas que são verdadeiramente nossas.

    Um beijinho, CF

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    1. A mim faz-me sentido que assim seja Miss Smile. Sinto-me como uma parte do processo, sempre menor. O cerne, a questão, é sempre a vida de quem me procura...

      Um beijinho para si :)

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  3. Supostamente dá ferramentas para se lidar com as várias versões da história

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    1. Não sei se dou ferramentas... Eventualmente, desperto para elas, porque na realidade todos temos quase todas as que precisamos... :) Um beijinho para si.

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  4. Na minha relação, terminada, com a terapia, sentia-me a melhor amiga da médica e ela falava-me também de como se espelhava em mim, éramos duas mulheres inteligentes que ali estavam, actualmente lembro-me imenso do que aprendi com ela e de como a calma surge quando a vejo na televisão e penso que ela ainda é uma fonte de sabedoria para mim. Porque nada tem fim, apenas a respiração, penso eu.

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  5. Bom ano novo, cheio de histórias boas para a nossa alma e para a sua!

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    1. A relação terapêutica, quando bem construída, faz muito por nós e por quem nos procura... :)

      Um bom ano para si também. Desejo-lhe tudo de bom.

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