domingo, 16 de abril de 2017

:)

Chegamos há demasiado tempo à era da felicidade. No seguimento desse caminho encontramos cada vez mais teorias de sucesso que nos ensinam a ser pessoas mais felizes e melhores profissionais, capazes de trabalhar diabolicamente sempre com um sorriso nos lábios e atitude pro-activa, a mãe de todos os sucessos. Em cada esquininha há uma frase de incentivo, em cada livro meia dúzia de respostas prontas, para cada mal mil remédios, todos eles com um smille, a receita infalível que se junta a meia dúzia de palavras que se vendem a granel, todas elas viradas para o lado bom da vida, muito a lembrar os romances cor de rosa e a revista Maria numa versão ligeiramente melhorada (?). Não há outra maneira de ser mãe senão a sorrir para as dificuldades, outra forma de gerir o stress sem ser o pensamento positivo, outro caminho para a vida a não ser o da felicidade, outro trilho para a dor da mente que não englobe em primeira linha a sublimação da realidade. Gosto pouco desta visão sonhadora do mundo em que estamos. Aprecio todas as teorias da educação para a felicidade, considero-as de extremo valor em alguns domínios da nossa existência, mas como em tudo na vida, o excesso danifica a qualidade, e o extremo mata o equilíbrio. E é exactamente aí que nós estamos neste momento, num qualquer saco fechado a atilho, banhado a felicidade, nem que seja barata, nem que seja fictícia. Passamos da era da realidade à era da fantasia, e julgamos por isso que estamos um passo à frente dos nossos avós, aqueles que choravam os mortos ao vivo, que gritavam a céu aberto as suas rezas, que espalhavam a genuinidade como quem semeava milho em época fértil. Fico ainda mais preocupada quando encontro no topo das vendas de livros, as receitas milagrosas de quem sabe ensinar a ser feliz. Ser feliz não se ensina. Ser feliz não vem com receita prévia, não se aprende nos livros doutos da ajuda alheia, não se fecunda nas prateleiras dos supermercados, ao lado dos iogurtes de morango, do vinho branco, do Sonasol verde e dos cereais de pequeno almoço. Ser feliz não é com pouco nem é com muito, não há segredos, não cresce em meia dúzia de rituais de sucesso, não vem da cópia de atitudes básicas praticadas por algum iluminado da existência. Ser feliz nem deve existir enquanto conceito absoluto, o que para mim chega para deitar por terra todo este bando de sumidades, mas ainda assim, parece-me que a acontecer algo semelhante, passe muito mais por deixar sair o que se sente do que por mesclar de tintas pastel e palavras bonitas o que na realidade zanga, mata, corrói e desassossega. É que quando é para chorar, não adianta rir. E quando é para zangar, não adianta acalmar. Tal como quando é para estar feliz a sério, não é para encobrir. E nem é preciso procurar. 

Mantenham-se então em tempos de Páscoa, eu por cá farei o mesmo, triste ou feliz, de acordo com a minha vontade, que pode ser de procura, de mudança, de manutenção ou de auto-análise. E não ousem contrariar-me, por favor, tenho uns livros diabólicos no bolso capazes de assustar o mais hábil vendedor de sorrisos do mundo. São quase tão eficazes como os que ajudam, comem pessoas impertinentes.

12 comentários:

  1. 😊Muito bom, lufada de ar fresco.

    ResponderEliminar
  2. Ser "feliz" nem sequer é um direito, vê lá tu...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Também acho. Dá trabalho a felicidade, e depende de quem a quer... Trabalhar nesse sentido, em termos de valor e crescimento pessoal, é que não é nada fácil. Fácil é ler livrinhos dos que falo, e achar que se está lá...

      Eliminar
  3. faz-me lembrar uma altura em que um dos meus filhos sofria por amor. tinha sido rejeitado. então eu e a avó tentamos tudo para que ele não demorasse muito tempo naquela tristeza. contávamos piadas, proibíamos lamurias, obrigávamos o rapaz a sair de casa, e outras estratégias do género. um dia, ele abraça-me, e desabafa - caramba, mãe, nem me deixas viver o meu desgosto de amor...
    eu tinha-me esquecido que talvez o sofrer fizesse parte do ultrapassar aquela fase, de amadurecer, e então deixei-o viver 'o seu desgosto de amor', como ele disse.
    concordo plenamente com o seu texto. mesmo, mesmo.
    bom domingo, CF.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois é, Ana... Quando é para sofrer é para sofrer. Não há outra forma de se ultrapassar um desgosto. Nós tendemos ao " salvamento", totalmente errados, e a julgar que fazemos bem... Ainda bem para ele que conseguiu gritar isso mesmo...

      Eliminar
  4. Tens toda a razão! Ai, os livros motivacionais... matam-me. A felicidade está no coração de quem a sentir, pelos motivos que lhe forem caros. De pacote nem a comida, quanto mais a felicidade!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tão boa essa da comida de pacote... :)

      Eliminar
  5. Concordo tanto! Mas que eles vendem, vendem...não sei como há tanta gente a embarcar na cantiga, ele há conferências, workshops, encontros...e muitos, muitos livros.
    ~CC~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É a lei do facilitismo a funcionar. Como se fosse possível ser assim...

      Eliminar
  6. Respostas
    1. Dos livros que comem pessoas impertinentes? Também eu... :)

      Eliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores