sábado, 29 de abril de 2017

piso 7

No Hospital havia muita gente. Velhos, novos, centenas de pessoas passeavam-se hoje pelos corredores do edifício velho, e as esperas no elevador demoravam minutos, em vez de um instante. No turbilhão de pessoas deu-me uma aflição e necessitei de ir à casa de banho. Procuro uma vazia, uma com fecho, uma com porta, e após subir e descer vários andares deparo-me com uma muito limpinha, onde uma velha loira lavava a dentadura. Entro para o átrio do lavatório onde os dentes repousavam quietos, e fico a esperar que se ausente, queria fechar a porta exterior. Não foi possível. A velha empenhou-se muito nela própria, e começou a retirar da mala vários utensílios de maquilhagem, uma escova de cabelo, uma caixinha de comprimidos, uma garrafinha de água, tudo enquanto eu cruzavas as pernas com força, necessitava de conter o corpo que ingerira coca-cola ao almoço, zero calorias, muito gás, 33 centilitros de liquido. A certa altura, decidi para mim própria, minha menina, pede ajuda à velhinha que te agarre a porta e avança, caso contrário nem a velha anda, nem tu te alivias. Peço licença e entro. Encosto a porta que não fechava a sério, e fico a rezar para que naqueles segundos a velha não desapareça de me guardar o caminho, mas foi em vão, sumiu-se de mansinho mal lhe virei as costas, enquanto emitia umas palavras imperceptíveis, muito baixinho. Apresso-me e saio, muito mais rápido do que o que entrei, e fico realmente espantada com o que vejo enquanto lavo as minhas mãos. Abandonada, entregue à sua própria sorte, estava a dentadura, há minutos lavada a preceito, escovada e zelada como se de uma verdadeira preciosidade se tratasse. Não se encontrava na segurança de um lencinho, na guarda de uma caixinha, na solidez de um local que a protegesse das mãos curiosas, dos olhos enojados, das senhoras da limpeza que desnorteiam tudo quanto lhes passe no caminho. Fiquei a olhá-la, tenho uma relação muito própria com dentaduras desde que Justa não conseguia encaixar a que lhe pertencia, e as senhoras que a cuidavam, teimosas e zelosas, insistiam com força na boca aberta da criatura assustada. Encaixa primeiro daqui, avança dali, desencaixa dacolá, tudo até se perceber que afinal de contas a dentadura de Justa era a que por engano Alfredo, depois de morto, tinha levado para o caixão. Entre gargalhadas e desespero concluiu-se sabiamente que há coisas bem piores, e foi o que eu fiz hoje, naquele exacto instante. A velhinha esqueceu-se dos dentes no lavatório do hospital. Por esta hora, já em casa, tentará lembrar-se onde raio os deixou, em que lavatório os lavou, em que casinha de banho podem ter sido abandonados. Não se lembrará, estou certa de que irá ter de encomendar outros, de que jamais lhe ocorrerá ir procurá-los à secção de perdidos e achados de Santa Maria. É a sorte dela. Caso fosse, caso se sujeitasse a tal desastre, por ora poderia incorrer no risco de experimentar apêndices esquecidos, pertença de um outro alguém distraído, guardados juntamente com lencinhos, carteirinhas, chuchas e biberãos. Podem não acreditar, mas a seguir a ela fui eu, a maior beneficiária desta história. Não tive guardiã, é certo, mas fui vigiada uns instantes pela sua dentadura, o que me deixou na sensação de que bem vistas as coisas, estava extraordinariamente segura. Nenhuma outra senhora aflita invadiria aquele espaço, adornado a próteses dentárias, situado algures no piso sete, tenho absoluta certeza disso. A intimidade serena com este tipo de utensílios, não é para qualquer criatura.

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