quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Cães, e afins


Confesso que me enerva um pedacito, a expressão, proferida perante a presença de um canídeo de raça, ou bafejado pela beleza, e que consta " Tadinho. Tão lindo e abandonado. Se calhar tem fome. Mal empregado." Pois se calhar tem. Só não percebo é o porquê da beleza ser chamada ao caso. E o rafeiroso abandonado, não terá fome? O rafeiroso, esse, que no fundo, é a maior vítima de abandono. Será que, não sendo portador de dotes de estilo, não é merecedor de pena? Não será cão por isso?

Não gosto de ver animais com fome. Não, não gosto mesmo. Mas a mim, tanto me toca um Caniche felpudo, como o rafeiro pelado que me assola a porta, e ao qual atiro pela janela do terceiro andar, fatias de fiambre e restos de carne.

Este exagero patético, da importância da beleza no Mundo é de facto abrangente.

Devaneios...

Ontem, e não obstante a leitura ser boa, fico estupidamente agarrada ao livro até altas horas. TV sem som, à qual lanço o olho, esporádicamente. Manta peluda a aconchegar-me, luz de candeeiro, óculos no nariz. Pela segunda vez, leio o Ensaio Sobre a Cegueira. Já lhe tinha pegado em tempos, mas com outros olhos. Sim, porque nós temos vários pares de olhos ao longo da vida. O que estes vêm, os outros não viram. Se calhar é dos óculos, não sei. Encontro-me exactamente na parte, em que começo a questionar o ditado, do Cego do Olho e do Rei. Ou sou eu que questiono tudo, poderá ser. Transporto para outras realidades. Que me atingem de perto, e bem no presente. Como exemplo, posso deixar que as personalidades fortes são privilegiadas. Aguentam mais e assim. Penso que os chamados fracos, são, não raras vezes, os verdadeiros espertos. Que se encostam. Aos fortes. Devaneios... Só isso. Bom dia. Por aqui está sol, intercalado com nuvens. Na minha cabeça estão nuvens, intercaladas com sol. Não sei se será bem a mesma coisa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sapos ou assim

Há dias, em que sapos verdes e barrigudos, como se tivessem acabado de fumar um cigarro até ao fim, se apresentam bem defronte a mim, à espera que eu os engula. Tenho dias. Uns em que me armo de resignação necessária, e engulo-os de facto. Outros em que lhes dou um chuto no traseiro que os faz rebentar. Outros em que os transformo em qualquer outra coisa, que não sei bem o que é, mas não é um sapo. Não diria que são uma iguaria, mas, posso arriscar um inofensivo copo de água. Fico feliz quando o consigo. Mas quando o consigo a sério. Não gosto cá de fingimentos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Mais uma C


Pra desanuviar do post anterior, venho contar-vos a história da minha amiga C. Tenho várias amigas C, como de resto já devem ter percebido. Eu própria, sou C, fazendo jus à vulgaridade de um nome. Podia ser E, de Ermengarda, ou assim, mas não. Não nasci para ter nome de Rainha, embora tenha sangue azul. Ninguém acredita, até eu levantar o cabelo e deixar a descoberto um maravilhoso sinal azul que atesta esta pura verdade. Comprovo, a quem quiser ver. Adiante. Não sei se esta será bem amiga, ao contrário das outras que por aqui tenho falado. Ou melhor, sei, e já não é. Foi, em tempos. Hoje é conhecida. Não tenho contactos dela, e só a encontro ocasionalmente, quando me desloco a casa dos meus avós. E ainda assim, nem sempre. Vive por terras Algarvias, por onde estudou, e onde ficou. Faz parte do pequeno rol que saltou fora da aldeia. Mas ainda assim, parece que não saiu de lá nunca. Estranho isto. Quando me vê chegar, para o habitual café após o almoço, olha-me de soslaio. O café da aldeia, e para quem não conhece, é o ex-libris de qualquer terrinha que se preze. Logo a seguir ao Largo da Igreja, é lá que se encontram as gentes, se fala da vida alheia, se observam as toilettes, e por aí fora. Dirijo-me à mesa, como manda a educação, e cumprimento-a a ela, e aos familiares. Estão todos bem, apuro. Por sua vez, comentam o tamanho do meu J, e olham-me, principalmente ela, num misto estranho de admiração e censura. Que sinto auditivamente, num bichanar entre dentes, quando me afasto. É aquilo a que normalmente chamo de inveja. Não sei muito bem as razões. Talvez fosse pela minha saia justíssima, pelas minhas meias fantasia, ou pelos meus sapatos, que me elevavam ao céu. Ou ainda pela minha maquilhagem cuidada, ou pela minha echarpe, lindíssima. Também poderá ter sido por qualquer outro motivo que não estou bem a ver qual. É que este, ainda se vê. Outras coisas, nem por isso. Fico intrigada. E sinto de imediato a sensação, de que não podia de facto pertencer aquele meio, no meu dia a dia. Não gosto da censura. Não gosto de ter de passar por ela, ainda para mais pelos olhos de alguém que partilhou comigo a secretária da escola primária. Que a meu lado leu as primeiras letras, e deu o primeiro beijo a um rapaz. Estão ali as origens das duas. As famílias, os ancestrais, os alicerces. Constato que, e apesar de termos desertado bem cedo, não nos distanciamos da mesma forma da pequenez de espírito patente em algumas mentes. Não sei, não me importa, quem está bem ou quem está mal. Só constato diferenças. Demasiadas diferenças. Não vim triste. Nada disso, até porque já tenho sentido a sensação mais vezes. Umas de forma mais intensa, outras um pouco mais discretas. Acho que vim feliz por não partilhar com ela, o que para mim, é mesquinhes de sentimentos. Triste por ela, também não vim. Não me entristecem os críticos. Talvez me façam pena, ou assim.

Dúvidas

Vejo um documentário. Nada de novo. Nada que não tenha visto já. Mas sempre que os vejo tremo. E tremo porque a injustiça me aflige, com um poder estrondoso. Tremo porque conheço de perto as realidades de quem, por qualquer motivo supremo, está diminuído física ou psicologicamente, de forma séria, perante a sociedade. É injusto. Uma sociedade criada não sei por quem. Não discuto criações supremas se não as conheço, pois só discuto o que conheço, e aceito as minhas limitações. Mas como Pessoa, Gente, o que quiserem, custa-me residir num País que se diz desenvolvido, mas que responde mal, muito mal, a quem mais precisa. Não importa porquê, importa que precisa. E corrijo. Não é num País, é num Mundo, pois todo ele é injusto neste aspecto. Sem imputabilidades concretas, mas ao mesmo tempo, com o aval de todos. Ou quase todos, pois como sempre, admito as excepções.

E tremo porque me custa a aceitar a crueza de dificuldades tão severas. Existências tão dramáticas. Vidas tão difíceis. Não consigo deixar de perguntar o porquê. Só não obtenho resposta.
É nestas alturas, em que me apetece pôr tudo em causa. Tudo não digo, mas coisas. Muitas coisas.

Vou ali num instante comer um chocolate, a ver se a neurose me passa. É a abordagem corrente, não é? Faz-se qualquer coisa que nos distrai, e pronto, passa. A nós, e na nossa realidade, passa. Pior é quem come o chocolate, e continua envolto em duras realidades.


Seguidores