segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Mais uma C


Pra desanuviar do post anterior, venho contar-vos a história da minha amiga C. Tenho várias amigas C, como de resto já devem ter percebido. Eu própria, sou C, fazendo jus à vulgaridade de um nome. Podia ser E, de Ermengarda, ou assim, mas não. Não nasci para ter nome de Rainha, embora tenha sangue azul. Ninguém acredita, até eu levantar o cabelo e deixar a descoberto um maravilhoso sinal azul que atesta esta pura verdade. Comprovo, a quem quiser ver. Adiante. Não sei se esta será bem amiga, ao contrário das outras que por aqui tenho falado. Ou melhor, sei, e já não é. Foi, em tempos. Hoje é conhecida. Não tenho contactos dela, e só a encontro ocasionalmente, quando me desloco a casa dos meus avós. E ainda assim, nem sempre. Vive por terras Algarvias, por onde estudou, e onde ficou. Faz parte do pequeno rol que saltou fora da aldeia. Mas ainda assim, parece que não saiu de lá nunca. Estranho isto. Quando me vê chegar, para o habitual café após o almoço, olha-me de soslaio. O café da aldeia, e para quem não conhece, é o ex-libris de qualquer terrinha que se preze. Logo a seguir ao Largo da Igreja, é lá que se encontram as gentes, se fala da vida alheia, se observam as toilettes, e por aí fora. Dirijo-me à mesa, como manda a educação, e cumprimento-a a ela, e aos familiares. Estão todos bem, apuro. Por sua vez, comentam o tamanho do meu J, e olham-me, principalmente ela, num misto estranho de admiração e censura. Que sinto auditivamente, num bichanar entre dentes, quando me afasto. É aquilo a que normalmente chamo de inveja. Não sei muito bem as razões. Talvez fosse pela minha saia justíssima, pelas minhas meias fantasia, ou pelos meus sapatos, que me elevavam ao céu. Ou ainda pela minha maquilhagem cuidada, ou pela minha echarpe, lindíssima. Também poderá ter sido por qualquer outro motivo que não estou bem a ver qual. É que este, ainda se vê. Outras coisas, nem por isso. Fico intrigada. E sinto de imediato a sensação, de que não podia de facto pertencer aquele meio, no meu dia a dia. Não gosto da censura. Não gosto de ter de passar por ela, ainda para mais pelos olhos de alguém que partilhou comigo a secretária da escola primária. Que a meu lado leu as primeiras letras, e deu o primeiro beijo a um rapaz. Estão ali as origens das duas. As famílias, os ancestrais, os alicerces. Constato que, e apesar de termos desertado bem cedo, não nos distanciamos da mesma forma da pequenez de espírito patente em algumas mentes. Não sei, não me importa, quem está bem ou quem está mal. Só constato diferenças. Demasiadas diferenças. Não vim triste. Nada disso, até porque já tenho sentido a sensação mais vezes. Umas de forma mais intensa, outras um pouco mais discretas. Acho que vim feliz por não partilhar com ela, o que para mim, é mesquinhes de sentimentos. Triste por ela, também não vim. Não me entristecem os críticos. Talvez me façam pena, ou assim.

4 comentários:

  1. Estas coisas são normais nas terrinhas...

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  2. Ou assim...é bom constatar que nós mudámos. Se calhar é nestas alturas que percebemos que nos momentos em que tivemos escolha, fizemos a escolha certa.

    Mas podíamos sempre estar a tirar meias de leite, com o nosso rol de filhos e uma paz como não há.

    Há sempre dois lados da mesma moeda.

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  3. São o que chamo de vicissitudes da vida.

    Sobra a certeza de que passou pela tua vida na altura certa. Na idade que não é feita de invejas e mesquinhices e saiu para dar lugar a outras pessoas que como tu não partilham desses terríveis sentimentos.

    Sim, acho que só tens motivos para estar feliz!

    :)

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  4. Inveja é o que é! Ele há tanta por aí! E então em terras pequenas! Olham de soslaio, lançam olhares críticos, porque é a única forma que encontram, dentro delas, para se desculparem o facto de terem, de alguma forma, ficado para trás...

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