quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Da máquina de costura...

Vou restaura-la, diz-me a minha mãe, referindo-se à máquina de costura da minha avó. Eu não sei mexer nela, mas tu sabes. Tremo. Não tenho por hábito ser atingida por coisas que pertenceram a alguém que me foi querido. Não costumo fazer projecções para objectos, e transporta-los no tempo. A pessoa valeu por si. Tenho uma fotografia dela, que vislumbro de longe a longe, quando a saudade é mais forte. Os sítios onde esteve, ou o que lhe pode ter pertencido, não costuma ter para mim grande significado. Como de resto na maioria das coisas. O valor que lhes atribuo é sempre relativo. Porque me sensibilizei? pergunto-me a mim mesma.

Concluo, julgo que com alguma precisão, que foram memórias. Muitas memórias envolvendo aquela máquina, velhinha, preta e carunchosa. Em pequena, ficava a mirar a minha avó enquanto ela costurava com dedicação as roupas do marido, dos filhos e dos netos. Acrescentos ali, remendos acolá, que a vida nessa altura não se compadecia. Recordo-me de a ver por uns acrescentos de pele nos joelhos das calças de ganga. Nada estéticos, mas extremamente resistentes. E a estética que se lixasse. Ladinamente, roubava-lhe o dedal que usava para proteger os dedos. Cabiam dois dos meus lá dentro, o que deveras me irritava, pela consciência exacta da minha pequenez. No sótão, onde habitava a costura, existiam uns baús de madeira, velhinhos e cheios de tesouros. Que mais não eram do que trapos velhos e outros artefactos ali depositados, que poderiam sempre ser serventia para qualquer coisa. Haviam também brinquedos, antigos e usados. No meio desse sótão, existia um varão que segurava a telha vã que o cobria, e no qual eu gostava de andar à volta até cair para o lado. Da janela, via-se uma antiga casa, de uma velha senhora de ar misterioso. Havia quem por lá dissesse que era bruxa. Eu via-a muitas vezes, envolta num xaile preto, e aqui vos confesso, que morria de medo dela. Fantasiava mil histórias macabras, que poderiam passar-se dentro daquelas quatro paredes. Acentuadas pelas leituras de contos antigos, que contavam histórias de papões e outros que tais. Portadores de enormes facas, capazes de definhar golpes fatais em criancinhas indefesas, com o intuito único de as comer. Terrível. Ainda hoje me inquiro, com existiam, e eram lidos a crianças. Nos nossos dias, seria um atentado.
O acesso ao sótão, era feito por uma longa escada, onde brinquei horas a fio. Enquanto a minha avó costurava, a um ritmo calmo e regular. Recordo-me com uma exactidão precisa, do barulho que a máquina fazia. Temo ouvi-lo de novo. A mim, o definitivo não me soa bem. O nunca mais, o para sempre. É demasiado forte, e têm uma carga emocional elevada. Essa carga, aliada a boas memórias, transporta-me por meandros profundos que tento evitar. Porque os sentimentos agregados são por demais marcantes. E porque não voltam mais.

2 comentários:

  1. Não a uses :) mas vale com certeza a pena mandar restaurar, já quase não existem essas coisas...

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  2. Mais que as fotografias, os objectos e recordações, a tua avó vive em ti. Elas impregnam-nos, e deixam em nós,o melhor. Para sempre.

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