sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Jasmim


(Fotografia do Paulo)

Segredaste-me ao ouvido ao mesmo tempo que os segundos voavam entre os ventos fortes de Outono e as primeiras chuvas de Inverno. Deixaste que os gestos dissessem o que as palavras escondiam entre os teus olhos verdes e a tua boca grossa, o corpo tem discrepâncias capazes de nos traírem o propósito, asfixiado por sentimentos maiores. Hoje, com palavras ditas e amores falados, agarras-me pelas minhas mãos frouxas ao mesmo tempo que engolimos a cidade a uma velocidade vivaz, incauta, estonteante. A fusão torna a inversão viável e todas as propriedades possíveis, devidamente acondicionadas em almofadinhas cor de terra e de fogo, macias o suficiente para que nelas nos deitemos enquanto o sol se põe para dar lugar à lua, também ela muitíssimo nossa. Só temo mesmo a janela do quarto de qual a espreitamos. Envolve-a uma varandinha florida, pequena e frágil, que a qualquer minuto pode desabar. Exige-me cuidados redobrados, exímia atenção, exagerada cautela. Coloco um pé com jeitinho, depois o outro, e espreito para as ruas calmas enquanto me perscrutas do quarto, sempre num cuidado inquieto por uma veleidade qualquer. Nunca te deixas disso, nunca nunca te deixas disso. Eu olho-te invariavelmente com os mesmos olhos, miro-te por detrás de uns caracóis insistentes que me cercam a testa e me tapam o sinal azul e real que me habita desde a nascença, jamais deveria permitir que o escondessem, não há maior nobreza no meu corpo. Há porém fraquezas muito maiores em mim. Não acautelei convenientemente o meu coração, por exemplo, deixei-o contigo à hora certa, entre um dia e um outro, perdi o norte à exactidão do instante. A partir dele todas as flores dos jardins por onde nos passeamos têm perfume de jasmim, que hoje alaga a cidade e a deixa afundada numa penumbra embaciada por fins de tarde e por beijos. E o que eu gosto dos teus beijos. Aprecio-os especialmente quando os consigo roubar por entre os lençóis quentes da noite fresca, madrugada afora, esbanjados por entre as luzes perdidas de uma qualquer rua sem fim. Agora vou ali mirar o sol de Setembro, para logo depois me esperares no mesmo sítio, sempre igual. Não recearei sequer a varanda do quarto, que há muito me cheira ao aroma forte do jasmim. De lá, consigo ver o mundo.

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