sexta-feira, 1 de julho de 2016

vestido branco


Comprei um vestido muito branco, com uma rendinha em baixo. Costumo vesti-lo com muita cautela, não vá o meu corpo ter algum espinho que o atravesse e lhe roube a beleza, ficaria com um rasgão de alto a baixo. Quando o visto sinto-me uma espécie rara de ar muito angélico, adornada por uns caracóis teimosos que insistem em atravessar o meu caminho, por muito que os anos percorram e me desmanchem aos bocadinhos; mãos, pernas, coxas e pés, tudo se desmorona menos eles, talvez por teimosia, sabem bem que os detesto até ao fundo de mim, que os cortaria pela raiz, que os mataria de uma penada. O meu vestido branco, por sua vez, nunca me deixa ficar mal, consegue a proeza de me fazer acreditar que o imaginário é tão eterno quanto possível, por muito que o tempo se cruze, no passado, no presente, no futuro, na alegria e na tristeza, na graça e na desgraça. O simples vestido preto, não comprometeu nunca a grande Ivone. O branco imaculado comprometeu-se comigo. E eu não posso deixá-lo ficar mal. 

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