sexta-feira, 1 de novembro de 2013

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( Fotografia do Paulo)

Por vezes canso-me do politicamente correcto, da aparência cuidada, do traje irrepreensível e do cabelo alinhado. Canso-me das horas que me travam mais do que a saia que visto, das pessoas que me olham com olhos de sociedade, dos familiares que me aguardam com ar de compromisso, dos que se sentam na minha beira à espera de compreensão. As manhãs exigem que as encare com sorrisos, as tardes querem prontidão na indolência da sesta, as noites tardam ou livram-se de mim mais depressa do que as ondas se escapulem do mar, surfadas na ira por um McNamara qualquer, desalinhadas, excessivas, violências sem direcção. Estatelam-se numa areia fininha e sempre igual, uns montinhos, umas pegadas, umas conchas e uns caranguejos, umas direcções trocadas e umas rochas duras, um cheiro a maresia e um frio gelado que de manhã aquece ao sol madrugador, nunca dorme mais do que deve. O cuco espreita para fora do relógio de madeira que não conhece outros compassos, o pássaro canta em harmonia inexplicável, os cães correm atrás dos donos e os gatos atrás do leite, os carros apinham-se  nos cruzamentos onde os semáforos acendem e apagam para que pessoas cruzem a passadeira que as leva ao destino, a bica e a nata, o jornal e o ponto, a secretária e a empreitada até ser noite, poucas pausas, nenhumas emoções, elevado rendimento, rotina q.b. Quando me canso desleixo o propósito e acordo a latência. Descuro a norma e agarro o grito, visto um vestido encarnado a condizer com a boca e com o sangue que me arrasta e circulo pelas avenidas em desalinho acordado, mais rápido do que a minha própria sombra. Subo as calçadas e rumo à torre mais alta, esqueço os ventos e as vigias, afronto os guardas e as armas, as bandeiras e os galões, as poses e as convicções. No final caio sempre desamparada, sem anjos da guarda que se condigam para me alinharem os passos. Não me assusto que não meto medo, sou mais fiel à nobreza da vida do que o meu coração ao meu corpo; só me deixo circular ao semblante da lua, tão ela como ninguém, e acordo quase sempre antes de sair para a rua. Quando isso não acontece, sinto que pouca coisa me passa ao lado.

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