quinta-feira, 7 de novembro de 2013

outono

( Fotografia do Paulo.)

As aranhas eram pretas e espreitavam pelos buracos de tijolo tosco que guardava o tanque. O baloiço ao lado baloiçava enquanto as vigas carunchosas do tempo e da chuva se queixavam ruidosamente, ao mesmo tempos que os nossos pés tocavam o castanheiro em frente. Era Outono, e o meu pai não sabia que eu corria o risco de ser atingida por um conjunto de telhas desgovernadas, os riscos para o meu pai eram todos calculados e rigorosos: os carros, os ciganos, as árvores que eu gostava de subir, os poços, os doces, a doida da velha que morava aos fundos, o porco que grunhia quando morria às mãos de Manel Azinheira, trauma certo para uma pequena que naquela altura ainda só tinha idade para comer as sopas. Também havia o muro demasiado alto que permitia ver a aldeia ao longe. Ninguém subiria aquilo, quanto mais uma menina franzina, quanto mais duas. As mesmas que brincavam horas debaixo de uma mesa a fazer de casa de bonecas, mesmo ao lado da avó e do gato zarolho e coxo, para além de feio. Os ares de anjo governam o mundo, não sei se já tinha dito. Um banco alto, um tijolo por cima, um fim da tarde, um lusco fusco. Ninguém via nada e nós éramos grandes. Tínhamos pena, claro, o que é isso de grandeza sem que ninguém saiba a distância que nos separa do resto? Mas era um segredo só nosso, para poder acontecer.
Também fugia muito para o pé dos ciganos. Eram bonitos, viviam numa tenda, cantavam e dançavam na noite e na lua enquanto eu espreitava; aaai, meus olhos ficaram lá, meus olhos ficaram lá, meus olhos ficaram lá... Não percebia muito bem o que era isso de deixar olhos e vir embora, mas pensava sempre que haveria de existir uma explicação ajuizada. Um dia encontrei-a, muito mais tarde, longe da sensatez que entretanto me morreu de vez num lago onde os sapos coaxavam em coro. Era sensato eu ver de fora, mas a tábua que atravessava o rio até meio chamou-me e eu fui. Claro que não nadava, mas sobrevivi e achei que o juízo em excesso não era chamado para a vida. Foi outro dos perigos identificados para o futuro, a tábua no rio, mas para mim perigosas eram as formigas de asas, as malvadas. Não sei porquê ninguém percebia.
Nesse dia era são Martinho ou coisa que o valha. As castanhas crepitavam num lume aceso na berma da estrada, e havia vinho tinto que eu cheirava do copo do meu pai e do meu avô. - Queres provar?, dizia o avô Manel, sob o olhar aterrado de minha avó. A minha avó era mais de marmelada e bordados a ponto de cruz. Sim, sei tudo, porque é como andar de bicicleta. Claro que ao cair da noite o corvo Jacob me desassossegava em conjunto com as vozes que choram a cantar. Ainda hoje, a poder, escuto-lhes as lamurias internas, ninguém chora como os ciganos quando cantam nas noites de Outono. A velha dos fundos às vezes ralhava. Um dia morreu e ninguém deu por ela senão quando o gato apadrinhou a nossa casa. Tinha fome o traiçoeiro, via-se mesmo que não era cão.
Também aprecio broas da época, não me venham com a história de que a gula não move o mundo. Move, a gula também é um móbil, de gente e de bichos. E o néctar dos deuses pode desembrulhar-nos o estômago e o espírito, sou até capaz de cantar no final do repasto, mas só se houver castanhas, claro. Nunca mais me esqueci da velha, dos ciganos, dos perigos que engoliam gente pequena e da Nádia, que escolheu vivê-los comigo. E sobrevivemos, que nisto tudo já é Outono outra vez.   

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