quinta-feira, 7 de agosto de 2014

confiar

Sou da opinião de que no mundo deveria existir um compêndio emocional. Não uma brincadeirinha como o DSM, onde se colocam apenas as perturbações, meia dúzia de folhas, uma miséria que tapa os olhos à necessidade e que se centra na patologia declara, esquecendo os intervalos, os intermeios, os estados mornos do sentir, que muito embora equilibrados têm que se lhe diga. Um compêndio, o que era necessário era um compêndio com todas as formas possíveis de expressar a emoção de tudo o que nos acontece e de tudo o que acontece aos outros, uma ferramenta que esgotaria num ápice, dado o proveito revelado. A mim, por exemplo, faz-me uma falta tremenda perceber ao certo o que sente o velho que ontem deixou a casa de sempre, o café da vida, a esquina dos ventos do norte (o norte faz-nos sempre tanta falta), a horta cultivada na hora ditada pelo borda d’água, o livrinho que orienta  quase tudo quando a terra produz. Faz-me falta saber como se encontra hoje, na companhia da esposa de todos os anos, quando de repente (a velhice acontece sempre de repente), se juntou à comunidade onde agora reside, a comer ao lado de quem nunca viu, a escutar os gritos de quem já enlouqueceu, a solicitar ajuda à menina que o olha e lhe descobre a nudez do corpo. Faz-me falta sentir o que pensa o meu filho quando lhe imponho a regra da educação. Quando o ensino que deve ser correcto mesmo quando algum outro membro do grupo não é, quando lhe explico que intervir e reagir, sim, sempre, mas no limite da civilidade, sempre sempre do lado de cá. Faz-me falta perceber o que sente o enfermeiro a quem é exigida a clareza perante a morte, a competência perante a doença, a ligeireza perante o horário excessivo de trabalho, o ordenado magro e os anos de serviço, cada vez maiores e cada vez piores. Faz-me falta saber o que é o outro lado da educação. Qual o papel e o sentir do professor invadido, do professor avaliado, do professor excluído e do professor cansado. Faz-me falta, uma falta imensa conseguir olhar para os outros e saber o que lhes vai na alma, não por curiosidade, mas por compreensão. Se no mundo todos colocássemos num livrinho de bolso o que sentimos ao longo do tempo, se registássemos os medos e as certezas, as dúvidas e as ansiedades, as dores e as felicidades, no fim de uma vida estaríamos perante um precioso manual de orientação (não de instrução, claro, nunca de instrução), onde por certo caberia tudo quanto pode haver, devidamente organizado alfabeticamente, tematicamente, por estados de dimensão e de existência. Por consultá-lo e acolhê-lo, haveria de ser bem mais fácil a harmonização da humanidade, a partilha dos recursos e o respeito pelas diferenças necessárias para a continuidade disto tudo. Assim, cada um na sua, e temos a intolerância e a ignorância, até porque, valha-nos Deus, não conseguimos crer nem confiar. Nem, pior ainda, fazer crer ou confiar. 


10 comentários:

  1. Mesmo porque somos todos muito mais parecidos do que por norma julgamos... passamos é a vida a separar-nos.

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    1. A essência é a mesma... O resto é trabalho nossa e da sociedade, mas é como diz, as parecenças são mais do que muitas...

      Um beijinho para si.

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  2. Não estou de acordo consigo, CF! Não sabermos exactamente o que os outros pensam e sentem pode ser às vezes mais ou menos desesperante, mas é também esse mistério e diversidade que dá encanto à vida. "Não conseguimos crer nem confiar" é uma visão muito radical. Claro que muitas vezes nos enganamos, que supomos o que não existe nem por sombras e essa imaginação pode deixar-nos aquém ou além da realidade. Temos " a intolerância e a ignorância", mas temos também a descoberta, a surpresa boa, a cumplicidade e a sintonia. O risco de errar, de falhar e corrigir.
    Não me agrada a ideia de tudo previsto à partida, controlável a cem por cento, sem emoção nem audácia.
    Eu acho que não queria esse seu "compêndio emocional". É que me parece sempre um pouco limitativo, menos livre, não sei explicar...
    São irracionais muitas vezes, quase sempre, as razões que nos levam a "confiar" ou a "desconfiar". mas ainda que possamos estar enganados, é justamente aí que está a graça e o interesse, parece-me...

    Beijinho

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    1. Claro que dá encanto. Não ligue aos meus devaneios Isabel, são tudo questões de profissão... Qual é o médico que nunca sonhou saber todas as curas, o juiz que não ambicionou conhecer todas as leis, o escritor que não quis ser sabedor de toda a literatura do mundo?

      Um beijinho para si também.

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  3. E também estava-nos a fazer falta a sua companhia aqui, onde ninguém chora.

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    1. Caro Maurício, obrigada pela simpatia. Mas olhe que eu estive sempre activa num outro lugar, bem simpático por sinal... Era ter aparecido por lá...

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  4. Tudo isso num livrinho de bolso, CF?! Mas que grande bolso era preciso!!

    Claro que não resisti a vir visitá-la! E por cá continuarei ;)

    Um beijinho,

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    1. Sou uma sonhadora em todos os sentidos, eu sei... :)))

      Volte quando quiser. É sempre muito bem vinda...

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  5. Sabes de uma coisa? Com esse compêndio até poderias acabar com a guerra no mundo. Poderias, digo, mas não acabavas. Sabes porquê? Porque até numa mesma mensagem, num mesmo escrito, numa mesma menção, eu poso interpretar de forma diferente. O sentir do Outro jamais será radiografável, passível de relatório final. É dele, só dele; entenda-o quem quiser realmente se esforçar por o entender. E a isso não se chama compêndio. Chama-se amor.

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    1. :) Tanta veemência, jesus... Confesso que não esperava um final desses, mas olha que tens toda a razão do mundo. O amor, na sua essência, é uma compreensão e uma aceitação brutal. Puxa, tu quando te inspiras dizes umas coisas... :)) Estou a começar a pensar convidar-te, para escreves aqui...;)

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