terça-feira, 12 de agosto de 2014

tempos

Espreito uma porta encostada que se esconde à minha entrada com a vergonha de quem não se deixa invadir há muito. Insisto, encontro-lhe a chave debaixo do vaso do lado esquerdo, azul, povoado por uma terra seca e já sem vida. Rodo a fechadura com jeito e o clic permite-me sentir realmente o passado. Recuo uns trinta anos no tempo. Visto uma saia rodada e calço umas sandálias de tiras brancas. O gato Tareco brinca debaixo da mesa onde eu me sento a cozinhar massinha esparguete em água fria. Tentei atá-lo ao pé de mim e ao pé da mesa, mas ele esgueirou-se pela porta e renunciou ao pitéu que eu confeccionava com a delicadeza de uma senhora muito prendada. Carmina borda uns lençóis na mesa quadrada. Pergunta-me se tenho trabalhos de casa, se quero doce de tomate no pão, se a professora mandou algum recado. Tenho fome, claro. Como um papo-seco estaladiço e abalo porta fora, o cão Camões espera-me, cego de um olho, já sabe que dali em diante e até ser escuro é hora de passear. Volto sempre antes da ida ao leite. Gosto de ver Gertrudes apertar as tetas da vaca até que o púcaro se encha até ao fim, sou capaz de o levar à boca logo ali, mas o zelo impede-me, antes de tudo necessita de levantar fervura. Nestas coisas o meu pai está sempre do meu lado. Se ele já tiver chegado permite-me colocar o dedo na nata fresca e lambuzar-me sem que o fogão mate o que quer que seja, nunca adoeci da barriga por tal deleite, e se foi o caso já me esqueci. Num instante volto ao presente. Talvez porque o silêncio incómodo do vazio faça ranger muitas tábuas, faça estalar muitos móveis, deixe os ratos correrem o soalho, por baixo dos meus pés. Ainda arrisco abrir umas gavetas, ainda ouso espreitar a fotografia pendurada na sala de jantar, num golpe de sorte encontro uma caixinha de madeira que guardava os alfinetes e que lá dentro, tem um mundo enorme. Não destapei o fogão coberto pelo pano velho, não abri o guarda-fatos onde os vestidos se emparelham por cores e onde o espelho reflecte saudade. Por querer levantei um pano que me deixa a descoberto a máquina de costura. Dezenas de carrinhos de linhas encontram-se arrumados, devidamente ordenados, prestes a morar ali para sempre. Do lado de fora, um tempo depois, alguém arrisca dizer que tem de se dar a volta ao lixo. Nunca percebi bem a noção exacta que as pessoas têm de desperdício. Desperdício é um resto, e uma casa vazia de pessoas não é resto nenhum, penso para mim. Em seguida percorro a aldeia com os olhos. As casa fechadas, os restos, os desperdícios, tantos lugares já sem gente. Daqui a um tempo estarei no futuro, e nesse dia que há-de vir, toda a casa e toda a memória estará arrumada. Nunca morta, jamais apagada, meramente arrumada. Por ora e em mim, há muito passado e outro tanto presente. O tal futuro parece sempre tão longe, mas dizem que virá.

2 comentários:

  1. Tão, tão bonito, CF. E que bom ter o passado à mão de semear, numa espécie de casa-museu pessoal. E que sorte tão grande saber apreciar. :)

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    1. Obrigada Carla R. O nosso passado deve estar sempre à mão de semear... Devidamente arrumado e vivido... Um beijinho :)

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