sexta-feira, 19 de agosto de 2016

camisas

Trocar de camisa é desabotoar os botões, despi-la pelas mangas, um braço de cada vez, deixá-la cair no chão e muito certamente pisá-la, se calhar em caminho aos tropeções, até que se faça luz na escuridão. Escolhe-se sempre uma nova mais bonitinha, mais inteira, mais imaculada, eventualmente de colarinho levantado e com botão de punho dourado, que nos deixe com aquele perfil impecável, saído da máquina e do ferro. Bom cheiro, bom corte, óptimo ar, et voilá, espalha-se certa magia, uns tais pozinhos de perlimpimpim. 

Manuel trocava de camisa várias vezes por dia. Guarnecia-a com gravata e boina a condizer, e saía pimpão estrada afora, sempre bem adornado. Maria, selecta, ficava a vê-lo pela fresta da porta enquanto ele viajava em velocidade de ponta, rumo à victória. Há pessoas assim, que gostam de mudar de camisa mais frequentemente do que o cheiro do suor pediria, muito mais rápido do que a nódoa do vinho que caiu na curva da barriga, mais depressa do que o vinco que se desenhou tão formosinho, nas costas do banco do café. Necessitam de mudar de camisa à mesma velocidade com que esperam respirar farra e vontade. A camisa mortiça, concluo, deve ser um peso que faz muitíssima vergonha, à vista e ao coração. 

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