quinta-feira, 4 de agosto de 2016

velha

Não me posso envolver demais nos problemas de quem me procura, dizem-me num jeito atamancado de conselho sábio, vindo de quem não faz a mais pequena ideia de como faço o que faço. Concordo sempre com o que considero ignorante, não por desconsideração, mas porque já perdi a paciência para explicar tudo aquilo que não querem perceber. Posso até insistir de mansinho numa ou noutra nota de lucidez. Posso aguardar dois segundos e esperar que surta efeito, mais ou menos o tempo de um abrir e fechar de olhos, de olhar para o lado e ver a paisagem, de engolir um gole de qualquer coisa que me refresque a alma deste calor infernal. Mas no segundo seguinte, e se percebo a retranca, desisto. Olho sossegadamente e aceno com a cabeça, posso murmurar uns hum hum de incentivo, chego até dizer que sim senhor, depende da intensidade da voz sabedora e do meu grau de tolerância. Hoje, por exemplo, tinha rido num cinema de criançada. Tinha comido pipocas doces e tinha comprado um livro maravilhoso que trouxe num saco fabuloso, pendurado a tiracolo no ombro cansado. Tinha ainda pedalado numa bicicleta ao por do sol, batida na cara pelo vento e pelo pó da terra do campo, ele há lá cenário melhor para me dotar da calma necessária para enfrentar o inimigo? Por conseguinte, acenei sempre com educação. Deixei aquela pessoa a pensar que eu sou uma espécie de cobra, que sacudo a pele gasta mais rápido do que um fósforo a arder na calha da escuridão, é um remédio santo para o sossego das almas, minha e dela, que sou generosa na minha bondade. - É que se não for assim fica velha num instante, profere, orgulhosa, no final. Eu sabia que o conselho era sábio. E sabia ainda que a dita senhora ficaria feliz na condecoração, estive bem, estive muitíssimo bem. De uma outra forma, teria cansado o espírito já fatigado. Teria falado para quem não me quer ouvir, teria por certo ficado irritada na contrariedade da postura excessivamente certa, tinha conotado o meu entardecer num qualquer aborrecimento digno de reflexão contraditória, não mereço esse desfecho. Assim, muito melhor, trouxe uma ideia para escrever e soltar dois dedos de escrita simbólica, uma evasão tão válida como outra qualquer que se preze. No meu caso inofensiva, apaziguadora, relaxante, extremamente eficaz na vida de quem, como eu, ficará velha num instante. Já vejo isso pelo canudo da premonição sábia de ainda há pouco, mas a bem da verdade, e mal virei costas, atirei-o para o chão e espezinhei-o delicadamente, sem ninguém ver. À senhora, que de vez em quando também apresento uns rasgos de burguesa.

2 comentários:

  1. Não sei como é possível não nos envolvermos, como se faz isso...beijinhos.

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    1. Pois... Não se faz, é impossível... :)

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