terça-feira, 2 de agosto de 2016

farpas

Há muitas linhas que apago, logo após as escrever. São linhas que carecem de um filtro antes da publicação, que transmitiriam mais de mim do que o caro leitor poderia querer ler. O Correio da Manhã é o jornal de todos, sem filtros, sem edição, onde a notícia acontece na hora de transmissão. É o homem que mata, é o velho que morreu ao abandono no hospital, é a burla, é a violência doméstica, é a escumalha, é a vergonha. Em rigor, é a vida. Os jornais mais cuidados são polidos e utilizam parcimónia. São dotados de palavras escolhidas a dedo, de imagens acauteladas, de criticas sábias, de crónicas eruditas, pouco vadias, muito nobres, uma leitura da realidade. Em rigor, uma tradução da vida. 

Não posso escrever a cru, fico demasiado vulgar. Porém não sou de excessos, claro, e não me encontro no âmbito selecto de nenhum semanário. Só  aprecio a brandura do verniz, liso, brilhante, sem farpas, qualquer coisa parecida com algo que poucos apreciam saber. Um jornal que fica esquecido debaixo do monte, coberto pela actualidade, a ganhar pó velho no chão do quiosque. 

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