sexta-feira, 9 de agosto de 2013

palmier coberto

Os anos passam-me pelo corpo com uma velocidade alucinante, pregas na cintura, celulite nas coxas, peles secas nos pés, cabelos brancos na cabeça, rugas no canto dos olhos que vêm ligeiramente pior de há uns anos a esta parte, palato cada vez mais guloso, numa inversa proporcionalidade a toda e qualquer lógica. Nesse campo concreto dos sentidos valem-me os ouvidos cada vez mais apurados e mais requintados, ouvem tudo e só mesmo o que lhes apetece, potencialidade esta não atingível por qualquer órgão do corpo, convenhamos. Um louvor publico lhes deixo, merecidíssimo. Ainda outro dia sentei-me numa pastelaria e não havia o pecado que eu tinha escolhido para aquela altura, um direito adquirido por gulodice refinada, posso lá eu com contrariedades destas no fim de um dia de trabalho. Uma pessoa quando escolhe, escolhe, deveria ter direitos. O pasteleiro simpático indicou-me uma outra delicia que me deixou a olhar para a montra demoradamente, de facto caberia em mim, nem que sobrasse, sobra sempre qualquer coisa em formato adiposo aqui ou ali, que o que não me falta são locais de expansão livre e de desgaste lento. Foi um regalo poucochinho, regado a café forte sem açúcar para atenuar o pó doce e branquinho que jorrava do folhado a cada dentada, mais ou menos satisfeita, ligeiramente sorridente, parcamente deliciada. Sai de lá quase regalada, mas vai daí que pouco depois, o maldito do desejo voltou a crescer, direccionado ao esgotado palmier coberto que me persegue o espírito desde o dia em que o escolhi. Ora, todos nós sabemos que as perseguições de espírito são qualquer coisa de potência igual às perseguições à séria, isto para não dizer superiores, passo a explicar: podem até começar devagarinho, frouxas e tímidas enroladas num recanto miserável, como que a dormir quase sossegadas. Tornam-se robustas com o tempo corrente, bastantes o suficiente para que o corpo todo as sintas e as viva em suspiritos constantes e impertinentes, um estorvo à tranquilidade, careço tanto de um sossego maior. No rigor da incapacidade do domínio cedemos sempre, e das duas uma, ou acalmamos ou desiludimos. São sempre estes os cúmulos de qualquer ânsia.

(Muitas vezes uso um truque, cedo de uma vez antes da vontade se tornar uma hecatombe. O palmier de hoje, que havia, não me enchia as medidas, foi só isso. Magro, definhado, quase sem doce de ovos entre o folhado e o açúcar, não se admite uma míngua assim. A boca estava-me num sabor estranhíssimo, entre a fome e a vontade, acabei por engolir um pastel de coco e morder a língua, que agora me sangra em fio. Não há penso que a segure, nem outro acepipe que a acalme. )

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