domingo, 18 de agosto de 2013

Paris


(Fotografia do Paulo)

Há muitos anos rumei numa traquitana de quatro rodas ao lado da pequena prima e da grande avó. Levava por missão ser a co-piloto do tio, pobre de mim, que dormitava aos soluços acordados por travões de carro cansado, no qual sonhava com a Torre Eiffel e com a Fête des Loges, prometida. Voltas e reviravoltas e só recordo que morri de medo na cascata que descia em rompante por uma pedra gigante, nós de boca aberta, eu sempre tão pequenina. Desta feita é a cidade que me abre as portas da luz num tempo que me escorre pelas mãos muito mais do que as águas do Sena, que me guardam o amor para sempre. Há lendas que encerram verdades que queremos dizer ao mundo num grito nosso e o resto que fique muito sossegado. Pode escutar, pode calar, pode fugir ou pode passar, o que importa é o que gritamos e sabemos, não interessa verdadeiramente senão a quem sente, muito embora o mundo delas se alimente. A propósito,  há por cá uns noivos que casam eternamente, dia após dia, a deslumbrar a élégance da capital francesa, num chic style romantique, perfeito.
Ainda há pouco subi uma escadaria com quatrocentos e muitos e ultrapassei as gárgulas do tempo que relembram os vivos e os mortos de que a maldade existe até no mundo dos santos, nunca conseguiremos sossegar, nunca poderemos dormir, jamais deveremos esquecer.
Deixei-a um dia por Saint-Michel e só tenho de me redimir pela renitência, mas caramba, não é de ânimo leve que se abandona Paris. A abadia tolheu-me a teimosia que se esvaiu envergonhada, nada a fazer-lhe senão matá-la, perante tamanho assombro rodeado a águas e areias movediças capazes de engolir gente para os mais recônditos sítios guardados pelo arcanjo. Oh, mon Dieu, como eu aprecio un bon mystère.
Por ora segue-me a torre alumiada por uma lua do lado esquerdo, o local preciso, nunca deveremos esquecer a importância da exactidão, do pormenor, do detalhe. A vida é feita de espontaneidades mas também de rigores, nunca me convenceram do contrário. Nada é submetido à linearidade absoluta, quanto mais a fragilidade dos corpos que circulam ao acaso (?) nos dias escolhidos por uma divindade qualquer. A confluência é o que nos constrói na diferença: o saber que se é, o acaso que se aprecia, o sentir que se arraiga no corpo que segue sem direcção, totalmente sabedor do caminho que escolhe ( precisa?) por uns dedos estirados, abraçados ao coração. Na epítome da luz lêem-se e relêem-se umas entrelinhas minuciosas mais do que certas, direitinhas como os degraus que nos transportam a Sacré Coeur. Neles podemos ver os noivos, podemos espreitar-se a Torre, podemos até descê-los rumo ao muro onde a cidade se define em todas as línguas possíveis e imaginárias, apenas superadas por tudo o que a boca não consegue dizer, os dedos não podem escrever, o corpo não permite expulsar.
Por ora só queria mesmo saber como se pode não regressar, et c'est tout. Uma impossibilidade, eu sei, e talvez por isso irei levá-la comigo. Encontrará no meu corpo o lugar exacto onde deve de estar, ao lado da severa saudade, au pays des rêves.

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