segunda-feira, 22 de setembro de 2014

fado



Trouxe-me a notícia de que foi aos fados. A festa da guitarra portuguesa geme-lhe nas veias tal e qual o grito lhe escapa da voz, mais ou menos no timbre do fadista, pela noite afora, na cadência impaciente de um corpo que se desfaz. Sempre gostou de ver cantar tristeza, tal como sempre apreciou quem morre de amor, quem gesticula prazer, quem se desmancha no grito surdo da solidão. Desde há muito que a indiferença a indispõe. Indispõe-lhe o estômago, indispõe-lhe a mente, indispõe-lhe o corpo e as reacções, chorilhos de acções programadas que por vezes preferia matar. É que lembra-se de ser pequenina. Lembra-se de ser pequenina e da indiferença da mãe ser o suficiente para que o pai aparecesse vestido de monstro e arruinasse a casa, na calada da noite, também ela indiferente. Corria seguidinha, minuto sobre minuto, hora sobre hora, uma atrás da outra. Uma vez espreitou pela janela e era quase madrugada. Na casa em frente alguém a mirava, impávido, como se o cigarro aceso fosse a única coisa possível de se fazer. De manhã era tudo muito mais claro do que a água que pingava do beiral. O rosto da mãe sorria, uma festa na cara antes de ir para a escola, a noite estava longe de aparecer, faltavam horas, era mais logo. Começou cedo, muito cedo a saber que o mais logo chega tão depressa. Nessa altura, lembra-se bem, escolheu um boneco e levo-o consigo. Fez-lhe festas todo o dia e jurou a si mesma que jamais o abandonaria, se ele também não a abandonasse. O boneco, calado e diferente, colou-se a ela com toda a força do mundo. A indiferença, diz-me de olhos rasos, é uma dor que alguns seres inanimados podem apagar, e que alguns seres vivos podem acender. Sei disso, digo-lhe calmamente. Os fados, continua, os fados gritam ao mundo o que o corpo cala, embrulham-se num xaile e esbracejam, espremem a guitarra e aparecem, em cada esquininha, em cada voz. Jamais lhe serei indiferente, e perdoo-lhe a preferência pela noite. A noite, minha inimiga, por vezes também é minha. 
Fiz silêncio, nem sempre é pertinente. Mas ali cantava-se o fado.

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