segunda-feira, 22 de setembro de 2014

nós

Há dias em que deixo de ser mulher para pensar que sou um disco rígido, formatado, tabelado, certinho, direitinho. Nesses dias acordo cedo, pela fresca, engulo cereais saudáveis, saio de casa e respiro o ar limpo da manhã. Jamais passarei pelo pão branco, esqueço-me do mil folhas espalmado e do palmier coberto, entro no talho e trago uns insípidos bifes de frango, espreito a peixeira da praça e escolho uns peixes frescos, para degustar com salada verde. Nada disso me irrita. Sequer me perturba a montra carregada de roupa de Outono, porque só tenho um corpo e já muitos casacos, dois simples pés e um número mais do que suficiente de pares de botas, muitos lenços e um só pescoço. Em casa, tudo em ordem. Arrumo os sapatos no sítio (não vá alguém tropeçar e partir uma perna), o frigorífico respira bem estar, não há fruta engelhada, legumes secos, batatas com borboletas ou bolinhos com bolor. As mantas da sala estão arrumadas e a gata não se esconde lá por baixo por forma a desorientar o espaço. As almofadas não se encontram a dormir no chão, não há lenços ranhosos na mesinha, não se vislumbram contas espalhadas à espera de pagamento, trocos de um cêntimo, envelopes rasgados, migalhas de pão. A Teresa está limpa. O Óscar nada lampeiro no aquário de vidro, os livros estão ordenados, não há material de avaliação psicológica espalhado pela sala, desenhos projectivos ou tabelas de aferição. Mas que perfeição. 

Depois há outros dias em que sou mulher e em que tudo se inverte. Em que nada me parece chegar, em que tudo me parece apetecer, em que a desordem, a malvada da desordem se instala cá em casa com pés pesados, capazes de arrastar animais comportados, filhos arrumados, instintos orientados. A cada canto choco com um papel, em cada esquina tropeço numa sandália, em cada legume descubro uma lagarta, em cada trapo encontro um vinco. Correr e zelar não me adianta grande coisa, porque na verdade a orientação é mais interna do que externa, coisa típica do obsessivo obstinado. Na realidade, bem vistas as coisas, nunca está tudo perfeito nem completamente desorientado, e nós somos tanto a nossa realidade. Por causa disso também me dou ao luxo de mandar à fava o calendário. Com a inerente consequência de ainda não ter descoberto ao certo, se hoje está um dia de Outono ou um dia de Inverno. 

2 comentários:

  1. Um sorriso para si! Venho aqui algumas vezes lê-la. Mas não meto conversa, mas gosto muito dos seus textos. Neste, especialmente revi-me muito! Parabéns!

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    1. Andreia Santa Maria, obrigada bela simpatia. Volte sempre que queira, será bem-vinda... :)

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