segunda-feira, 8 de julho de 2013

a terrível burocracia do sapato

Há dias em que me apetece escrever sobre a simplicidade da minha vida, mas a verdade é que os textos que escrevo nesses momentos podem soar a uma vulgaridade demasiado banal. Por certo a ninguém apetecerá saber, ainda para mais com um calor destes, que ao dia de hoje, mais precisamente na parte da manhã, esfolei umas sandálias na calçada de Santarém. É uma coisa que me interessa a mim, ao sapateiro e a pouca gente que me possa ler, mas a realidade é que esta questão me ensombrou o dia, que para pouco mais prestará. É claro que a reunião que tratava inserções no mundo do trabalho, inaugurações de novos CACI sediados aqui e acolá sob a orientação de técnicos especializados para o efeito pretendido de empregar pessoas, é muito mais útil para a sociedade. É ainda claro que eu poderia discorrer sobre isso de uma forma sensata e ponderada, os recursos, os meios, os fins, as limitações e as exigências, os meandros e as consequências, as dificuldades e as mais valias, mas a verdade é que não me apetece. E não em apetece não só por respeito à desgraça das sandálias que trago nos pés, como também pelas delicadeza das situações sociais distintas que envolvem o mundo laboral. A relação entre procura e oferta é pouco linear e  muito preocupante. As intervenções directas esquecem por vezes dinâmicas familiares importantes e centram-se num resultado, que antes de evoluir na essência, não tem como desembocar coerentemente num ajuste final adequado. Mas escreve-se e fala-se consideravelmente, que o português no discurso da conversa elucidativa e justificativa é exímio, seguramente um dos melhores do mundo. Tudo parece ter sentido, tudo está devidamente delineado, esquematizado, formatado e planeado, e a falha é usualmente de atribuição externa, analisada exaustivamente na discussão dos resultados que ficam aquém, vezes demais. Por tudo isto e perdoem-me a futilidade declarada, a minha preocupação de hoje é de facto o salto danificado que me obriga a uma ida ao sapateiro rápido, que por sê-lo, rápido, nunca será barato. É este por ora o meu simples problema, que os outros, os reais, discutem-se nos gabinetes e são traduzidos em números e em percentagens. Ainda assim vou tentar ajustar o meu contratempo por forma a torná-lo válido, perdoem-me lá o abuso: acabo de perder 5% do meu calçado; precisarei de 1% do meu dia de amanhã para resolver o assunto e ando sem tempo; gastarei não sei quanto do  meu orçamento, uma maçada. Se tudo correr bem, a relação custo benefício será proveitosa. Se por ventura correr mal, terei de reunir um conjunto de pessoas para analisar o problema e perceber onde ocorreu o erro, reunião da qual resultará uma acta, lida e assinada. Daí em diante não sei onde vamos parar, mas será por certo a um qualquer local onde se escreve, documenta, analisa e verifica, tarefa esta executada por diversos intervenientes especializados, num gabinete com garrafinhas de água num tabuleiro e um ar condicionado fresquinho, que é verão e não se pode. No final de tudo poderá concluir-se que o problema não se resolveu porque o sapateiro não reunia condições. Mas ninguém se vai lembrar de formar o sapateiro.

( Leia-se famílias e pessoas no lugar de sapateiro, caso não se entenda. De formação profissional está o País cheio.)

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