terça-feira, 9 de julho de 2013

entardecer


Era sempre verão e ele entrava na mesma porta pela qual tinha saído no fresco da manhã nascida muito cedo, ao longe, via-se bem por detrás dos montes. A incongruência dos sentires que se alojam nos nacos dos corpos é qualquer coisa de incompreensível, na simplicidade que se quer nascente e crescente para que tudo seja fácil o suficiente. Ora, todos sabemos que a complicação é inimiga da felicidade. Dizem os livros, dizem as pessoas, dizem os animais que comem, dormem e procriam na hora exacta que tem de ser, onde for e como for, desde que seja quando o corpo quiser. Ela ficava sentada a uma mesa de cozinha por onde entrava um ar submisso ao ceptro dos deuses que devem estar loucos, têm de estar loucos, isto só pode ser bafo de loucura. Vagueava nos dias que corriam insanos pelas paredes sem relógio, que tiquetaqueava nos segundos e nos suores que limpava devagar na testa e nas coxas demasiado quentes. Calava-se e colava-se ao calor de um verão que a moía insistente nos lençóis brancos onde à tarde se deitava muito nua, sempre à mesma hora. A nudez começava uns minutos antes do findar do dia. Emergia do sol que abalava e da lua que aparecia nuns céus que falavam com línguas de um amor que morava recolhido nas árvores e nos bichos, nas coisas e nas pessoas. O amor é tão óbvio, que em tudo está mesmo sem se ver. Na espera não havia complicação alguma que a estorvasse e se houvesse, era porque no corpo resistia alguma roupa em estorvo, a matar e de uma vez. Tudo estava simples e no seu devido lugar. Ela olhava-se demorada e insistentemente, sem meditações de maior: a pele protegia-a dos males do mundo. A boca alimentava-a na fome, os olhos viam o que tinham de ver, as mãos tocavam o que quisesse mexer. No coração e no ventre sentia e guardava para sempre o amor que escolheu. O sangue que a corria espalhava tudo pelo corpo que assim se mantinha vivo e imponente, estendido e fácil ao entardecer,
- chegaste?
- sim.
- estava certa disso.
- eu sei.

6 comentários:

  1. "O amor é tão óbvio, que em tudo está mesmo sem se ver." - lindo

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    1. :) É verdade Sputnick. Também por isso a negociei...

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  3. Não foi ela que escolheu esse amor. Ele já lá estava em todo o seu corpo, na pele, na boca, nas coxas demasiado quentes. Só esperou o tempo certo, o único possível de acontecer e que aconteceu.

    (texto muito mais bonito do que a foto - a propósito, gosto muito de encetar "negócios" contigo...)

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    1. Bem vistas as coisas, tens razão. A palavra certa não será escolha, eventualmente mais percepção e conhecimento, na altura certa, sem qualquer sombra de dúvida...

      ( Ora Paulo, não digas disparates. Das fotos que já vi tuas, que não são tão poucas quanto isso, esta é sem dúvida das minhas favoritas. Já tinha pensado em negociá-la contigo há mais tempo, mas olha, pareceu-me ser esta a altura certa. A propósito, também gostei do negócio, portanto, sendo assim, continuemos... :)

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