domingo, 24 de janeiro de 2016

chegou cedo, pela fresca

A morte apanha-me sempre desprevenida. Hoje bateu à porta da minha vizinha da frente,  não faço ideia quando nem como chegou, se vestiu a rigor ou com vestes ligeiras, mas a verdade é que bem cedo quando saí de casa, mal o sol tinha nascido, ninguém se tinha apercebido que ela por ali passou. Ainda não se sabe se foi chamada ou se apareceu traiçoeira, se foi pronta ou se demorou, se escolheu aquela pessoa por casualidade ou se já lhe tinha percorrido as entranhas, em busca de alimento e sustento para prosseguir. Não consigo, nunca a consegui compreender, e talvez por isso senti um arrepio quando no regresso passei na porta e escutei a equipa médica a declarar o óbito, enquanto a viatura da vmer continuava acesa em porte de salvamento, tudo em vão. Já me deparei com este carro inúmeras vezes, muitas delas em vão. Incomoda-me o dito, incomoda-me quem lá vem dentro com a ordem da persistência, incomoda-me a insistência perante a imponência da morte, já instalada, já alojada, já acolhida, já declarada de forma natural, a única efectivamente real. Não que não respeite a vida e não julgue que a deveremos procurar até ao fim dos recursos, até ao último respirar, até ao derradeiro batimento cardíaco. Não que não acredite na reanimação, na recuperação, na possibilidade de reverter um processo quase culminado, mas a verdade é que não me consigo esquecer das manobras que efectuaram bem na minha frente, a um morto mais do que morto, mortíssimo, quase frio. A dada altura, lembro-me como se fosse hoje, retirei-me. Passei pela porta e encostei-me numa parede a escutar a conversa, os delírios, os telefonemas, as dificuldades, as limitações, e a pensar que nesta vida, em nome da própria, quase nunca sabemos respeitar um fim, não conseguimos facilmente fazer silêncio e deixá-lo estar, custa-nos em demasia. Mesmo quando quem morre, já morreu.

A minha vizinha era lenta e bonita, viúva há uns dez anos. Tinha dores nos ossos e costumava partilhá-las comigo. Desejo-lhe, sem que para nada o meu desejo possa ter interferido, que tenha recebido uma visita tranquila. Que tenham tomado um chá de camomila para sossegar, que tenham falado sobre a vida, que tenham discutido o local para onde a levou. Gostava ainda que ela tivesse esboçado um sorriso, encontrei-a muitas vezes em ânsia e em dor. O sorriso dela era sereno, mas muito difícil, estava cansada. Ainda assim quase juraria que sorriu quando a viu chegar, devia esperá-la. A mim, como sempre, apanhou-me desprevenida.

2 comentários:

  1. A morte costuma ser uma visita inadequada, cada vez mais sinto isso...

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    1. Sempre Pink. Nunca a esperamos, mesmo quando se anuncia...

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