domingo, 3 de janeiro de 2016

mal


( Fotografia do Pensador , Auguste Rodin, de Paulo Abreu e Lima)

Todo o profissional sonha com o limite da execução do seu trabalho. Creio que qualquer pessoa que ama o que faz aprecia que a consumação aconteça numa tarefa apoteótica, um CCB para um arquitecto, uma Ponte Vasco da Gama para um Engenheiro, um Ensaio sobre a cegueira para um escritor, um Sunday bloody sunday para uma banda, uma 5ª Sinfonia para um compositor. Daí em diante, e na comum das profissões, todos querem fazer o melhor que sabem num território mais complexo, acredito nisso. Não me parece que haja neurocirurgião que não aprecie uma boa intervenção, das que duram horas e salvam a vida, uma enfermeira que não se gratifique em trazer de volta ao corpo uma pele já morta, um cozinheiro que não engrandeça o ego perante um repasto feito ao desafio, um escultor que não se delicie com uma pedra difícil, de onde nascerá uma obra maior, externa e interna, onde todo ele se (des)faz em forma. Talvez por isso eu ande cansada de problemas menores. Talvez por isso eu pene por acção interna, e me enfade ligeiramente com a comum da desordem de personalidade, familiar, social, de aprendizagem. Não que não goste de intervir nela, mentiria, aprecio-a muito, são a minha profissão activa do dia a dia, nas horas cansadas, no trivial das 24 sobre 24, nos principais dias do ano. Mas a verdade, a real verdade, é que há alturas em que anseio por mais, quando me nasce uma vontade de morte para me direccionar ao limite do ser humano. O preso 64, por exemplo, deixou-me com água na boca e ganas de exploração. Matou a mulher, por portas travessas encontrou outra que o visita intimamente na cadeia, uma vez por mês e durante três horas, o dito porta-se bem. Apesar da benesse, 64 ameaça outras pessoas com o mesmo crime que já cometeu, sente-se grande, imponente, quando na realidade já rastejou pela mais baixa escumalha, já sentiu nas suas mãos o gosto do sangue quente da morte humana, já infligiu dor e horror. Não o percebo, não o consigo perceber, mas gostaria tanto que me faz até alguma aflição. Por muito que me debruce sobre os teóricos que estudam vidas e vidas a fio, por muito que olhe de perto os escritos e tente encaixar na minha análise interna o teor da maldade, faltam-me peças de encaixe, dezenas de dados, milhares de ocorrências, milhões de imprecisões. Precisava, a todo o custo, de edificar uma obra que me explicasse o mal, a mim e eventualmente ao mundo, com um elevado grau de precisão. Chamar-lhe-ia não sei que nome, e seria por certo transmitida por páginas inúmeras de um livro infinito, não acredito que a loucura do mal se explique com uma simples teoria. O mal é demasiado, quem sabe indecifrável. Ou será apenas o limite de todo o Homem? Eis a questão. 

2 comentários:

  1. Eu penso que o mal talvez seja o limite da covardia humana. Sinceramente, eu não consigo entender se existe loucura no mal. E se for apenas maldade, ou apenas loucura? E se todo o mal for inconsciente? Eu prefiro acreditar que a bondade é o verdadeiro limite do homem. É realmente difícil ser uma boa pessoa. Muitas vezes, nos enganamos.

    "De todas as criaturas já feitas, o homem é a mais detestável. De toda a criação, ele é o único que possui malícia. São os mais básicos de todos os instintos, paixões, vícios - os mais detestáveis. Ele é a unica criatura que causa dor por esporte, com consciência de que isso é dor." (Mark Twain)

    Gostei do texto. É um assunto que me interessa muito.
    Um abraço! :)

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    1. Não concebo a maldade sem a loucura. É pessoal, mas é o sentido que lhe dou. Encontro muitas pessoas loucas. Nem todas são más, algumas são só mesmo loucas...

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