sábado, 23 de janeiro de 2016

defesas

Escondo-me do tempo tantas vezes quantas as necessárias para que o meu corpo adormeça sossegado. Esqueço-me de cada minuto que doeu, de cada hora vazia, de cada silêncio que se alojou no lugar das palavras que eu queria ver nascer, e que se direccionavam sempre para o lugar oposto ao do meu corpo. Sou uma perita em cravejar sem se ver na madeira, os pregos enferrujados da minha história. Disfarço-os com um verniz polido e delicado, esforço-me por fazer brilhar a crosta, finjo que nada nem ninguém me pode atingir. Sei, claro que sei, que todo o constructo é fictício. Sei de cor os meandros perfeitos das nossas defesas, conheço-lhe as manhas, as capacidades, as possibilidades e as limitações, as imponências e as evasões. Sei que nos protegem e nos permitem existir, na exacta medida em que nos falham e nos colocam frente a frente com o agressor. Aí, claro, é matar ou morrer no confronto com a realidade. Escolho sempre o lado certo e fundo-me na história, se ainda doer muito construo outra, quem sabe mais requintada, muito mais refinada, extraordinariamente mais eficaz, sempre irremediavelmente falível. Quando me dizem depois que as ditas artes, guardadoras da sanidade, são um erro, estremeço. Um erro é não as encarar de frente, não as medalhar, não as elevar ao mais alto nível da nossa existência. As defesas são a nossa vida, sem elas estancaríamos no primeiro buraco da estrada. Precisamos apenas de as compreender e limar, em jeito de adaptabilidade, e daí em diante é alimentá-las, afagá-las, tentar que não se auto exterminem em pura exaustão. Aí sim, o fim. 

8 comentários:

  1. a adorar todos os teus textos :) beijinhos

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  2. Porventura, a única forma de viver satisfatoriamente ou sobreviver antes tantas agruras da vida. E, contudo, era muito bom que não fosse preciso socorrermo-nos de tal arte... Beijo.

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    1. Impossível Paulo... Nunca corre tudo de acordo com o que necessitamos. As nossas defesas permitem-nos sobreviver, até quando tudo corre ao contrário... São fabulosas, aí de nós se não fossem elas... Um beijo para ti. :)

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