sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

"ninguém morre sozinho"



Uma criança de onze anos foi agredida numa escola e morreu. A culpa não se encontra, acaba escondida no meio de coisa nenhuma, trata-se uma vida humana como quem encara uma fraca questão. Ainda ontem encontrei o vizinho que pela vigésima vez expulsa em mim a revolta que o mói por dentro, desde a morte da mulher, esquecida num corredor de um hospital no meio de cinquenta macas desorientadas e não identificadas. Há bem pouco tempo morreu um jovem num hospital por falta de um serviço de neurocirurgia que o operasse ao fim de semana, e não houve remédio que se lhe pudesse valer senão a morte. São todas vitimas distintas, mas revelam à sua maneira o vazio da sociedade, que as matou a todas. O foco centrou-se no Eu, e ninguém ensina a ninguém que o respeito pelo outro faz parte do respeito consigo próprio, e que ao quebrarmos um quebramos os dois ao mesmo tempo, porque nada nem ninguém existe isolado. Ninguém parece preocupar-se com o facto de neste mundo os fenómenos se contagiarem como uma gripe ou peçonha, que correm de pessoa para pessoa e matam de geração em geração, sem dó nem perdão. Ninguém ocupa o seu tempo a pensar que enquanto nas nossas mãos residir a responsabilidade da educação, o compromisso com o mundo é uma virtude vital, que nos transforma em agentes superiores de mudança e evolução. Enquanto continuarmos a deixar morrer com o mesmo sangue frio de quem passa por uma rua agitada, nunca conseguiremos resgatar as pessoas que deveriam ser salvas do esquecimento, da desordem , do fundamentalismo ou da deseducação, que por serem abandonadas morrem. Morremos todos um bocadinho enquanto seres sociais, e assistimos hoje  em dia a um suicídio colectivo, quietos, complacentes, cientes de que o nosso lugar nunca estará ameaçado.

(Oiçam a música e sosseguem. Não há nada mais falso do que a ilusão)

6 comentários:

  1. é sempre um abre olhos e um prazer ler os teus textos...

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  2. As coisas não têm um significado por si. Têm o significado que lhes dermos, que pode ser muito ou pouco. O que aqui escreve e aquilo que vamos vendo acontecer é demasiado revoltante e ignóbil para que façamos de conta que não é connosco. E, nestes casos, não basta encontrar e responsabilizar o(s) culpado(s). É importante perguntarmo-nos, enquanto sociedade e enquanto indivíduos, o que é que é preciso fazer, mudar, questionar para evitar que situações desta natureza voltem a acontecer. Só haverá justiça se estes casos servirem para mais do que os cinco minutos de indignação à mesa do café ou para engordar as audiências à hora de abertura do telejornal. O que aconteceu, e continua a acontecer, diz respeito a cada um de nós, pois a verdade é que, como sociedade, falhamos. Precisamos de mais empenho e comprometimento na construção de um futuro que pertence a todos. Porque, infelizmente, ainda que “ninguém morra sozinho”, continuamos a deixar as pessoas morrer sozinhas.

    Um beijinho, CF :)

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    1. É o caminho, mas parece-me tão complicado... Encontro em todos os meus dias pessoas que ignoram, pessoas que agridem, pessoas que não querem saber do outro, pessoas que não têm sequer competência para se auto-analisar, porque não querem ou não conseguem... Não sei o que fizemos à sociedade, mas por voltas que dê não encontro uma resposta possível de melhoramento. Espero que ele surja na evolução, reza a história que funcionamos por ciclos, quero tanto acreditar nisso. Já não verei, por certo, mas se existir quem veja, já é um bom começo... :) Bom fim de semana miss smile.

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  3. Uma amiga minha, professora primária dizia-me "se pelo menos conseguir ajudar um já valeu a pena". É desencorajador, mas acho que é assim que funciona.

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