segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

promessas

Descobri entretanto que ainda se apalavram casamentos. Que ainda existem famílias que escolhem maridos e esposas, longe de etnias e outras supostas "epidemias". Nelas não manda apenas a cultura ou a promessa, manda principalmente a carteira, o nome, a posição social, uma série de regras que os forçados nubentes deverão considerar em respeito e conveniência. Ela tem dezassete, e não sabe como poderá afastar-se dele. Namoram há três longos anos, suficientes para que se partilhe a mesa da família, a família, os passeios da família e a cama dela, na casa da família. O pior é que a ela já não faz sentido, desconforto acentuado quando ele, na fúria do ciúme e da posse, lhe bateu dentro do carro, à porta da escola. Bateu-lhe, puxou-lhe os cabelos, mordeu-a com força na cara, ficou a dentada marcada. Ela ficou em pânico e contou à mãe. A mãe, acérrima defensora do futuro genro, mais mãe dele do que sogra, muito mais mãe dele do que dela, defendeu-o com unhas, dentes, palavras e gestos, parecem iguais, como se fossem feitos da mesma massa de sangue, mãe a genro. A culpa era dela, não dele, e a marca foi atenuada e não evidenciada. O namoro prosseguiu em vez de morrer na hora, ela aceitou, não tem forças para coisa nenhuma. Ele é e será sempre o menino bom de boas famílias, diz a mãe. Tem nome, é o namorado da filha dela, o genro perfeito, o pai dos netos. Esta filha está verdadeiramente assustada, porque para ela, ele não é nada daquilo. Conta-me tudo na surdina das paredes, pede-me que não deixe transparecer a vontade dela de mandá-lo embora, precisa que a mãe acredite que ela gosta dele porque não lhe é permitida outra realidade, e sendo assim o que lhe resta é enfiar-se na cama para poder falar às escondidas com o seu novo amor, nas noites vagas do namorado actual. Não fosse o dramatismo da história, e o livro poderia nascer perfeito. Não fosse haver vida e (in)felicidade envolvidas, e poderíamos ler o romance debaixo de uma árvore, numa simpática cadeirinha de leitura, com sorte ao sol. Não fosse real e seria uma bela de uma ficção, capaz de adaptação para obra cinematográfica. Não fosse a ganância e a grandeza, a manipulação e a prepotência, e seria tudo muito mais simples e verdadeiro. Não fosse eu quem sou, e teria dito àquela mãe que está terrivelmente enganada, poderia até dizer-lhe que quem merecia ter levado um puxão de cabelos era ela, por pressionar a filha a este cenário dantesco. Eventualmente, e se não fosse eu quem sou, poderia ser eu a puxá-los, com alguma força e sem hipóteses de redenção. Mas eu sou quem sou, é um facto, e resta-me ganhar a confiança para manipular a acção, e atingir lentamente os objectivos daquela jovem abandonada. Não sou boa, nunca fui boa para trabalhos de paciência que me afrontem directamente a razão. E por enquanto, não consigo concluir mais nada que preste.

6 comentários:

  1. Pois é. E também ainda existem mulheres que mantêm a data de um casamento por vergonha. Ou que estando perto dos 40 anos casam com quem não gostam porque acham que é a única oportunidade de terem filhos e constituir família. Longe de mim julgar estas opções mas no meu íntimo causam-me sempre uma certa tristeza.

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    1. Também a mim. Neste caso, e pela imposição ser externa, causa-me revolta, para além da tristeza...

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  2. Eu compreendo sua sensação de impotência... É difícil acordar todas as manhãs e dar um passo de cada vez, quando algumas vezes gostaríamos de resolver os problemas maiores naquele exato momento, sem precisar esperar. A espera é um longo caminho e, a paciência, sua sombra. Caminhe pela sombra.
    "A paciência é a única solução para os males que não têm solução." (Joseph Joubert)
    Tenha um lindo dia!

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    1. Dizem que com a idade a paciência virá. Por ora continuo com alguma pressa, quando o assunto me dói...

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  3. E, infelizmente, todos conhecemos um ou outro caso de pais assim que, na sua caminhada narcísica pela vida, veem os filhos como um meio de realização pessoal, uma extensão umbilical de si próprios, um instrumento para sanar frustrações. É, no mínimo, revoltante...

    Um beijinho, CF

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    1. É muito Miss Smile... :( A mim até dói...

      Um beijinho para si.

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