sexta-feira, 18 de outubro de 2013

clandestinidade institucional, pequena miragem de vida.

Saio pelo portão da frente e viro à esquerda, não posso pagar, ali ao lado há uma outra solução mais baratinha, também ela satisfatória. Não há médico, mas vai-se ao hospital, uma injecção dá a patroa, percebe do oficio, a comida é preparada na cozinha pela auxiliar que até sabe qualquer coisa de culinária, pica tudo na picadora, mistura na sopinha, fruta nem sempre mas quase, pão a todas as refeições. Leva seiscentos ou assim, ouvi dizer, não se passa fome nem solidão, há uma televisão para todos que anima o espírito nos dias em que ele ainda vive desperto, nos outros espreita-se só a fresta da janela que dá para a estrada, não há quintal. Em opção posso sempre ficar em casa sozinho, distraído pela doença neurológica que desencaminha muitos euros em comprimidos, leva memórias e competências, atenções e capacidades de comer a horas e de ter cuidadinho com os bicos do fogão. Depois vem o Natal, e o que eu gosto do Natal. No Natal as pessoas preocupa-se muito com os velhinhos que passam os outros onze meses sozinhos, trazem farófias e fatias doiradinhas e polvilhadas a canela e açúcar, o café escuro acompanha. Nessas alturas tudo parece funcionar em permanência, a solidariedade brota nas pessoas, nas famílias, nos políticos e na vizinhança que não quer perder a oportunidade da boa acção que acolhe a necessidade de braços abertos, há alturas em que o mundo se sustenta a ele próprio. Ah, maravilha das maravilhas. Mas depois vem o ano novo e a vida velha. O costume, o pão que está seco, a sopa que azedou, o dinheiro que não cobre as dores que desatinam nas pernas e nas costas, malvadas, em tempos varriam o mundo. Volto a pensar e preciso de um sítio que eu possa e que exista para mim. Os que existem para mim são os que que eu consigo pagar, que aos outros não chego, por pobreza ou falta de poder, logo não constituem solução. A clandestinidade para mim não é um problema, é uma resolução.

(E um País que permite e incentiva isto, não é desenvolvido, é uma aberração. Desenvolvimento é adaptação às limitações, e não decretos em escadinha com exigências bonitinhas e dispensáveis que não matam a fome, não curam doenças, nem eliminam a solidão.)

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