segunda-feira, 14 de outubro de 2013

géneros

Disseste-me ontem que distingo homem de mulher com uma forte veemência, de um lado uns do outro os outros, cada um com a sua tarefa a cumprir, distinta, fragmentada, definida por um critério impresso nas páginas dos tempos, como se esses não tivessem ultrapassados. Não estão, lamento dizer-te mas não estão, se é que importa analisar propósitos e tarefas de género, como se o corpo a sociedade e o espírito não se encarregassem por eles de fecundar caminhos distintos, sem discussão. Não me soa a estranho, não me impugna o encanto, sempre gostei de ser mulher, havendo o homem no lado oposto da barricada. De resto, nunca me perdi em discussões feministas quando as mesmas se constituem extremistas ao ponto de considerarem uma igualdade impossível de acontecer, muito além da razoabilidade dos direitos de dignidade, porque esses não se discutem. Porém parece-me importante referir, que se por um lado encaixo o homem no lugar do homem e a mulher no lugar da mulher, tenho cada um em muito boa conta, são metades, ambos existem em igualdade e em diferença. É por isso que me excluo completamente das que o julgam um mero enfeite doméstico, um acessório ligeiramente incómodo que serve para fazer biberões à noite, levar o lixo à rua e os miúdos à bola, segurar o comando da ZON e ir comprar pão quando chove. Para além das bilhas do gás, claro, que as plumas acho que já nem existem, e se existirem são transportadas às costas de meninas agradáveis, não nos interessam nada, portanto. Também não pertenço à classe das que os consideram uns palermas aturdidos por isto ou por aquilo que agora não interessa especificar, capazes de pensar pouco e de fazer ainda menos, reféns de um corpo que gosta de sossego e de comidinha a horas, na mesa e onde apetecer. Caramba, tu não sabes, se calhar eu nem te digo, mas tenho-vos mesmo em boa conta. Vocês podem ser sensíveis, pois podem, e não ficam com um ar frágil, ficam com um ar humano e nós gostamos, mesmo que seja sempre às escondidas do mundo lá fora. Vocês são inteligentes como nós nunca sabemos ser, uma inteligência segura de si, pouco dada a colapsos nervosos reservados para a outra metade do planeta. Vocês podem ser tolerantes ao limite do razoável, fazer orelhas moucas quando não devem mas também quando devem, quando as hormonas nos engoliram e notam-me muito a olho nu, nos gestos rápidos, nos olhares retorcidos, nos sonos agitados, nos gritos estrídulos. Vocês sabem ainda que um galanteio nos recupera do mundo dos mortos, aquele onde caímos por pouca coisa e de onde julgamos nunca mais sair, é impossível, muito fundo, tão escuro, irreversível. Vocês vivem a vossa vida e a de quem está próximo, passam pela alheia como nós passamos por carros de fórmula 1, e isso chega-vos e não querem mais. Nós não temos isto mas temos outras coisas, umas boas e algumas más. Uma certa complementaridade que há quem goste de frisar como incómoda, sem pensar que a única verdade é que se fossemos seriamente iguais fugiríamos uns dos outros, e o mundo, o pobre, morreria. Por tédio e ausência de multiplicação, ambas terríveis, abomináveis, desprezíveis, completamente evitáveis.    

2 comentários:

  1. CêÉfamiga

    Encontrei-te no Alugo-me para rir!, o teu texto para mim foi extraordinário e por isso resolvi vir até cá. Em boa hora o fim, porque descobri e confirmei o que já se me tinha enroscado na terceira voluta da massa cinzenta, a contar de baixo: és mesmo boa a escrever. E eu que sempre escrevi para ganhar a vida e fui chefe da Redacção do Diário de Notícias e professor de Português, tenho a mania de "passar" um texto para que ele saia mais ou menos escorreito...

    Mas, (há sempre uma adversativa desconhecida que espera por nós...) tu não precisas de que o faça. É obra. Escreves como respiras, tens os poros receptivos ao meio ambiente, tens a ideia numa tecla e não precisas de mais. Transcrevo: Para além das bilhas do gás, claro, que as plumas acho que já nem existem, e se existirem são transportadas às costas de meninas agradáveis, não nos interessam nada, portanto. Podia transcrever muito mais: o texto todo; os textos todos.

    Qjs = queijinhos = beijinhos

    Henrique

    Já te sigo. E vou colocar-te nos meus BLOGUES MAIS FIXES da Minha Travessa. E, mais ainda: se quiseres colaborar lá, é com muito prazer e orgulho e honra que te acolherei. 30/40 linhas em corpo 14, tema à escolha (não faço censura... estou farto dela) título`e texto à tua vontade e "cabeça" e paginação faço eu. Periodicidade: um texto por mês. Pagamento: não há; os euros estão cada vez mais caros e raros. E com o que este (des)Governo nos rouba... nem pó!

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  2. Caro Henrique, só tenho de agradecer a sua extrema simpatia. Transmitir qualquer coisa quando se escreve é sempre o que se pretende. Se o leitor sente que o faço de forma minimamente agradável, esse facto só pode ser bom. Irei também espreitar a sua casa, pois com certeza, mas colaborar é difícil, que o governo a mim rouba-me os euros e o tempo...:) De qualquer forma, estou muito agradecida pelo seu convite,

    cumprimentos para si e volte sempre, que será bem-vindo.

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