quarta-feira, 30 de outubro de 2013

matemática pura

Vera insurge-se irritadíssima pela sua ignorância. Quando foi ela levaram-lhe uma boa metade do aparelho, ficou limitada nas suas capacidades reprodutivas, entregue à sorte e ao calha, pode ser que aconteça, quem sabe um dia, não sonhe muito com esse assunto, pode ser que Deus queira. Pois bem, e se Deus não quiser? E se pretender que os resquícios que guarda lhe engelhem e ressicam dentro do ventre, mirrem, desapareçam, morram devagarinho deixando-a entregue à infertilidade que tanto a assusta? Haveria de ser já, disse-lhe o médico, meia dúzia de meses, um restabelecimento suficiente, um não dar descanso ao que sobrou com vida e que por certo será suficiente para colocar uns óvulos férteis no útero, à espera de fecundação. Haja colaboração de quem de direito, haja e da boa, já agora. Entretanto escuta um novo processo, uma mesma doença altissonante, um outro procedimento, nada de barrigas abertas, uns furinhos, umas horas, sabe lá a outra o que a vida é. Há pessoas que parecem não perceber que as próprias dores são sempre maiores. São dores lancinantes do corpo ou da alma, capazes de aturdir forças e de matar coragens, de espetar facas em ânimos e de despertar estados débeis devidamente justificados, arrumados num diagnóstico insólito, nunca no mundo se viu igual. No corpo dos outros nunca nada é nada. No corpo dos outros crescem pequenos males de curas e consequências pouco graves, meras disfunções inconsequentes, poucos prejuízos, e, se ou houver, rapidamente ultrapassáveis. Ao telefone reforça tudo aquilo enquanto a convalescente, paciente, escuta. No final Vera insiste e remata que não percebe porque não foi avisada. A interlocutora por seu lado ousa não perceber o porquê da indignação, e reserva-se ao direito de nem devolver feed-back. É profundamente discreta por natureza, mas e se não fosse? Nada vezes nada é nada, contar o quê? 

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