segunda-feira, 21 de outubro de 2013

facilidades

Oiço demasiadas vezes pessoas que vociferam coisas, contra os meninos que não querem aprender (todos os meninos querem aprender, assim a vida não os leve para outros caminhos). Lembro-me com frequência do Samuel. O Samuel não queria aprender, o Samuel queria o prazer fácil que o sossegasse depressa, não estava para ter trabalho (a vida já lhe dava tanto). Queria a consola que tentava roubar ao colega que não emprestava, queria apanhar o sol enquanto se deitava na relva a apreciar Joana, a miúda mais gira do colégio. - Era até ao osso, ouvia-o dizer, enquanto a pobre se esgueirava por entre as outras meninas, tímida, encolhida, envergonhada. O professor Tó não tinha paciência para saídas destas, faltas de respeito ( o que é isso, respeito? ), a menina merecia-o. - Vai cavar, malandro, e ele fingia que ia.
A Dona Zé da cozinha era outra das visadas. Salgava o que não devia, cozia demais o que tinha de ficar meio cru, deixava o pitéu sempre aquém da expectativa ( que vida, caramba, deveria ser feita à medida e não é!). Na parte da tarde, ao calor, era preciso estar sentado na aula teórica. Liliana, a professora de Inglês, tinha as costas quentes do marido, um educador brutamontes que assustava meninos desobedientes. Bastava-lhe isso para se pavonear por entre as mesas de cabeça erguida e ameaça na ponta da língua, para quê perder tempo com outras estratégias educativas (será que as há, quando ninguém quer aprender?). Cristina tinha a boca ao lado por um acidente vascular cerebral precoce. A fala ficou-lhe apanhada, a aparência estranhamente engelhada, perdia a paciência com a mosca que lhe poisava na orelha, quanto mais com as investidas de Samuel, cruel como poucas pessoas conseguem ser ( a vida, será que é?). António era o motorista que vivia a vinho tinto carrascão. Cheirava-se à distância de dez pessoas, para além da cor que se percebia a uns bons cem metros. Transportava a canalha para a outra escola quando era preciso, - não valem nada, dizia à boca cheia, -ninguém lhes dá educação,  um dia a sociedade ainda se há-de fartar disto ( nunca se fartará do vinho, néctar dos deuses e às vezes dos diabos. Ninguém lhes dá educação, ninguém lhes dá coisa nenhuma, qual é a parte da frase, proferida por vós, que não percebem?). 
Um dia chamei a mãe que olhou para mim sem nunca olhar para o filho. Uma figura inteiriça, farta de carnes e de presunção, com um umbigo maior do que o globo terrestre. O filho tinha vindo em má hora, quis a ignorância que não o tivesse percebido a tempo, só quando saltou dentro da barriga aos pontapés. Foi tarde demais, teve de nascer. Tinha uma história negra e pouco ou nada para dar, um trabalho numa empresa de limpezas e sabe-se lá mais onde, outros filhos, tantos encargos, mais uns vícios.

( A vida é também ela um ciclo vicioso. A grandiosidade de poucos é arriscar quebrá-lo, a sensatez de outros é tentar entendê-lo e harmonizá-lo, a pequenez de alguns é só desdenhá-lo. É provável esta última, percebo. Bem vistas as coisas, quem é que não aprecia uma boa facilidade? )

3 comentários:

  1. Já tinha saudades de te ler. Bolas pá ! o que eu tenho perdido! :(

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    1. :) Volta Antígona, anda. Aposto que tens muita coisa para contar, tu, que desapareceste do teu estaminé... :)) Era bom ter-te de volta, era...

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