quarta-feira, 27 de março de 2013

alternativa

Gosto de cozinhar. Tivesse eu errado o destino e hoje trabalharia por certo num restaurante das redondezas, cozinharia bacalhaus, bifes, lebres, borregos, vacas e porcos, garoupas e filetes de pescada em molho de azeite. Imagino-me vestida a rigor, farda preta, avental branco, chapéu alto na cabeça, bancadas de aço inoxidável e despensas recheadas de tudo. O simples facto de ter de passar os meus dias a picar cebolinhas e alhos em bocadinhos infinitamente pequenos que não se detectassem a não ser no paladar, nunca me demoveria. Sei o truque para que o cheiro desapareça num segundo, é colocar uma faca em fio de água e deixar as mãos receber a que trespassa a lâmina fina, não há odor que resista. Esventrar animais também não me causa repugnância alguma. Sou capaz de esfolar um coelho, retirar-lhe o fel amargo do fígado, cortá-lo em mil pedaços e estrugi-lo numa frigideira em lume brando, horas a fio que não sou de pressas. Hoje quando me perguntaram a propósito, se poderia ter sido qualquer outra coisa em vez de me debruçar afincadamente sobre mentes humanas, estive quase a deixar escapar esta minha vertente, entre outras, que houve mais. Não o fiz. Recuei no último instante e deixei-me ficar sossegada cá dentro, enquanto programava a paciente seguinte. Quando cheguei a casa, tardiamente, enfio-me na cozinha e como um mísero grelhado saído à pressa, estou longe daqui. Preciso de estar perto para me entregar ao que faço. Consigo-o facilmente na minha profissão, se calhar, a única que pode ser verdadeiramente minha. Certamente, só antes de tê-la poderia não sê-la. 

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