quarta-feira, 20 de março de 2013

avó

Amanhã é o dia em que a minha última avó completa mais um ano. Disse-me ainda há pouco que está para breve, que tudo lhe foge por entre os minutos que se esgueiram vida acima, como se lhe coubesse a previsão consagrada de decidir as horas exactas em que deixará de sentir o pulmão esquerdo a importunar-lhe a existência. Está farta dos seus suplícios de tântalo, uma espera vagarosa feita invariavelmente no sofá da sala debaixo de uma manta mindrica, com o Sebastião preto e barrigudo açafatado nas côncavas das pernas magras. Há muito que a oiço dizer isto e nunca lhe dei razão. Parecia-me sempre que a distância ao acontecimento tinha o tamanho da imprevisibilidade da vida e da morte, e que tais palavras serviam apenas para que o afecto que lhe tenho esbanjasse em forma de sorriso terno e recadinhos brandos. Agora já não é bem a mesma coisa. Agora as palavras dela estão empestadas de uma fraqueza que as torna quase tão precisas como o fraquejo do corpo, e atingem-me como se o que prevêem fosse tão certo como a madrugada dos dias. Não muda nada. Faço-lhe as festas de sempre, comprei-lhe exactamente os mesmos bombons, vou ouvi-la balbuciar baixinho o discurso da praxe. Vai dizer-me que não se importa e eu quero muito acreditar que é verdade. Vai dizer-me ainda que já não completa mais um e eu não queria acreditar nisso, porque isso são aquelas coisas que nós não conseguimos prever, mesmo quando a presciência está perto de ser visível.

( Hoje é dia do pai. O meu é o filho dela, e é, como qualquer pai que se preze, o melhor do mundo. Sempre o achei, mas multipliquei o apreço que lhe sinto desde que se elevou a melhor avô do mundo.)    

2 comentários:

  1. Os meus pais também gostam muito de falar sobre isso e de prever o dia da viagem. É claro que, mais cedo ou mais tarde, acertarão.

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    1. É um hábito tão inglório quanto frequente... Enfim, há alturas em que começa a ter algum fundamento...

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